Por BNews
Com a exclusão do cônjuge como herdeiro necessário, mulheres podem enfrentar vulnerabilidades financeiras Foto: Divulgação.A reforma do Novo Código Civil,
atualmente em debate no Senado, traz uma mudança estrutural que promete sacudir
as bases do planejamento familiar no Brasil, com um impacto potencialmente
devastador para a realidade socioeconômica do Nordeste. A polêmica é a proposta
de retirar o cônjuge da lista de herdeiros necessários. Na prática, isso significa que o marido ou a
esposa deixaria de ter direito garantido por lei a uma fatia do patrimônio do
parceiro em caso de morte, permitindo que uma pessoa destine todos os seus bens
a terceiros via testamento, excluindo completamente quem esteve ao seu lado por
décadas. Essa alteração na legislação ignora uma ferida aberta nas estatísticas
brasileiras: o abismo de gênero no mercado de trabalho. Dados recentes do IBGE
revelam que, enquanto a participação dos homens no mercado supera os 72%, a das
mulheres flutua entre 53% e 55%.
No Nordeste, esse cenário é ainda
mais sensível devido às raízes culturais e estruturais que frequentemente
empurram a mulher para o papel de cuidadora exclusiva do lar. Ao longo de um
casamento, muitas nordestinas interrompem os estudos ou a vida profissional
para gerir a família, confiando na construção de um patrimônio comum que,
agora, pode ser legalmente blindado contra elas. O Instituto Brasileiro de Direito de Família
(IBDFAM) já levou o alerta ao Congresso, pontuando que a
"modernização" defendida por alguns juristas mascara uma
vulnerabilidade financeira aguda. Para especialistas em Direito Civil, o fim da
herança automática transfere a responsabilidade da proteção para o planejamento
individual. O problema é que, em uma região onde o acesso à assessoria jurídica
preventiva ainda é privilégio de poucos, a maioria das mulheres só descobrirá a
perda do direito no momento do luto, quando já for tarde demais para buscar
garantias.
Sem a proteção automática da lei,
a segurança patrimonial passa a depender exclusivamente da vontade do parceiro
ou de contratos antenupciais complexos. Especialistas advertem que o novo texto
pode deixar viúvas sem fonte de renda e sem teto, especialmente em famílias com
filhos de relacionamentos anteriores, onde a disputa pelo espólio costuma ser
feroz.