Por BNews
Seis meses depois do último adiamento, a Justiça
baiana deu prosseguimento nesta quarta-feira (6) ao julgamento do “Caso Pix”,
envolvendo os jornalistas Marcelo Castro, conhecido como Alô Juca, e o editor
Jamerson Oliveira. Nesta terça-feira (5), o Juiz Waldir Viana Ribeiro, da Vara
de Organizações Criminosas de Salvador, retirou o sigilo do processo. Com isso,
a imprensa pôde acompanhar nesta quarta-feira (6) a última etapa dos
depoimentos das testemunhas. Nesta quinta-feira (7), os réus serão
interrogados. Sem o sigilo, agora se sabe que o esquema envolvia não apenas
desvios financeiros, mas também um sistema de intimidação que calou vítimas
pelo medo.
VITÍMA AMEAÇADA
O ponto alto dos depoimentos foi a fala do delegado Charles
Leão. Elogiado pelo magistrado por sua técnica apurada e ética, ele foi o
responsável por presidir o inquérito no âmbito da Polícia Civil. O delegado
descreveu o clima que encontrou ao interrogar as vítimas e revelou que o
processo guarda um relato de uma pessoa que temia pela própria vida. "Houve
a ocorrência de uma vítima reportar situação de medo, de perigo, de risco...
Medo de ser assassinada em nome de Marcelo Castro", afirmou o delegado
durante a oitiva. O relato aponta que o repórter circulava acompanhado de
homens armados, o que era interpretado pelas vítimas, pessoas em estado de vulnerabilidade
extrema, como uma ameaça direta às suas vidas.
A CONEXÃO CENTRAL DO
ESQUEMA
Durante o depoimento, o delegado Charles Leão descreveu a
hierarquia do grupo, colocando o editor Jamerson Oliveira como a peça
fundamental para o funcionamento da fraude. Segundo Leão, Jamerson exercia um
"protagonismo operacional" sem o qual o desvio não seria possível.
"Eu sinto que ele é a função essencial dentro dessa coisa. Sem ele nada
aconteceria", disparou o delegado. Nessa estrutura, Jamerson contava com o
apoio direto do produtor Lucas Costa Santos. Enquanto Jamerson detinha o poder
final de dentro da emissora, escolhendo os casos e autorizando qual chave Pix
seria estampada na tela, Lucas era o seu braço direito no "trabalho de rua".
Era Lucas quem prospectava as famílias vulneráveis e, simultaneamente,
recrutava os "laranjas" que emprestariam as contas bancárias. Já
Marcelo Castro, era o rosto que pedia as doações e fazia o apelo aos
telespectadores. Juntos, eles formavam o núcleo logístico que permitia que o
dinheiro doado pelo público fosse desviado antes de chegar ao destino final.
O RASTRO DO DINHEIRO
Para o delegado Charles Leão, os extratos bancários são a
"prova viva" do crime. A polícia utilizou os Relatórios de
Inteligência Financeira (RIFs), elaborados pelo Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf), e a perícia do Laboratório de Lavagem de
Dinheiro (LAB) para seguir o rastro dos valores. "O dinheiro vai falar. O
extrato bancário fala de forma objetiva, sem influência humana", pontuou
Leão durante o depoimento nesta quarta. Durante a audiência, a defesa dos
acusados tentou desqualificar as provas técnicas e os RIFs apontados por Leão,
questionando a origem e a forma como os dados foram processados. No entanto, o
delegado reforçou que o rastreamento mostrou que as doações eram pulverizadas
em contas de terceiros para ocultar o lucro ilícito.
O PIX DE R$ 4 MIL
Outro momento importante da oitiva foi o depoimento de um policial militar que atuou em uma ocorrência no Nordeste de Amaralina. Ele queria ajudar uma família através de uma ação social e relatou ao juízo ter recebido um Pix no valor de R$ 4 mil em sua conta pessoal. Segundo o policial, ele acreditava que o recurso era proveniente da própria emissora para ser repassado à família carente. No entanto, as investigações apontaram que o valor partiu da conta de um dos réus do processo, identificado como Carlos Eduardo do Sacramento Marques. O depoimento reforça a tese de que o grupo utilizava contas intermediárias para mascarar a origem e o destino das doações.
COMO FUNCIONAVA O
GOLPE?
A investigação, reforçada por apurações internas da Record e
detalhada nacionalmente, mostra que a engrenagem funcionava de forma
organizada. Durante um ano e cinco meses, o grupo teria operado um esquema que
explorava a solidariedade do telespectador. Ao todo, as campanhas arrecadaram
cerca de R$ 543 mil. Desse montante, R$ 407 mil foram desviados, o que
significa que 75% de tudo o que foi doado nunca chegou aos necessitados.
ESTRATÉGIA DA DEFESA
Nesta quarta-feira, a defesa dos acusados optou por
dispensar testemunhas da emissora que trabalhavam na época, como José Eduardo,
Pedro Sento Sé e Adelson Carvalho. A estratégia atual dos advogados foca na
tentativa de desvincular a imagem dos réus de uma vida de luxo, alegando que o
editor vive em um imóvel alugado. O julgamento segue nesta quinta-feira (7) com
o interrogatório dos réus.
REELEMBREO CASO
Tudo começou quando a emissora notou inconsistências em doações de alto valor, como a feita pelo jogador Anderson Talisca. Após uma auditoria interna, a Record demitiu Marcelo Castro e Jamerson Oliveira por justa causa. Hoje, os envolvidos respondem judicialmente por apropriação indébita, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Ao todo, 12 famílias foram vitimadas diretamente. Fonte: BNews.