Por A tarde
Governador Roberto Santos lê edição especial de A TARDE sobre RMS - Foto: Cedoc A TARDE/15.8.1977
Médico, professor universitário e político, Roberto Santos
deixou sua marca na história. Aos 30 anos, já era professor catedrático da
Faculdade de Medicina da Bahia e, ao longo da carreira, assumiu cargos de
grande relevância. Foi reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba),
governador do estado, ministro da Saúde e deputado federal. Em 15 de setembro
ele faria 100 anos. Para marcar o centenário de seu nascimento, A TARDE Memória
relembra a trajetória do educador, incentivador da ciência e figura pública
baiana.
Filho de Carmen Figueira Santos e Edgard Rêgo Santos,
criador, patrono e primeiro reitor da Ufba, Roberto Santos nasceu em 1926, em
Salvador, e, desde cedo, demonstrou aptidão e disciplina nos estudos. Como
relembra Eliane Azevedo, membro da Academia de Medicina da Bahia, no artigo
Tributo ao Professor Roberto Santos - Homem de Ciência, aos 11 anos ele montou
um laboratório de química no porão de casa, com a ajuda da mãe, que comprou os
reagentes e demais itens para as experiências do garoto.
Anos depois, ao prestar vestibular para medicina, alcançou
as notas máximas das provas. Formou-se em 1949, aos 23 anos, e iniciou as
carreiras de médico, professor e pesquisador. Aos 30, foi nomeado professor
catedrático de Clínica Médica na mesma instituição onde se graduou. Desenvolveu
diversas pesquisas no Hospital Universitário Professor Edgard Santos
(Hupes/UFBA), popularmente conhecido como Hospital das Clínicas, e expandiu a
atuação para universidades estrangeiras como Harvard e Cornell (EUA).
Em Cornell, foi professor visitante de Clínica Médica.
Também foi bolsista de pesquisa no Departamento de Medicina Experimental da
Universidade de Cambridge (Inglaterra). Com a reputação construída na Bahia e
no exterior, em 1964 passou a integrar o Conselho Federal de Educação,
presidindo a instituição de 1971 a 1974. Antes disso, a partir de 1968,
presidiu a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) e ocupou um assento
no Conselho de Ensino Superior das Repúblicas Americanas, em Nova York (EUA).
OS ANOS NA REITORIA
Na Bahia, foi convidado pelo então governador Luís Viana
Filho para assumir a Secretaria de Saúde do Estado, em 1967, cargo que ocupou
por pouco tempo, pois foi nomeado reitor da Ufba. A reitoria permitiu-lhe
ampliar a atuação na gestão acadêmica e fortalecer a instituição como
referência em ensino e pesquisa, mesmo diante das dificuldades da ditadura
implantada em 1964.
“O professor Roberto Santos ocupa a reitoria da Universidade
Federal da Bahia num momento muito difícil da vida brasileira e para todo o
espaço de pensamento crítico e tentativa de exercício democrático. Por ser uma
instituição dedicada à palavra, ao estudo, à pesquisa, à reflexão e à crítica,
a universidade enfrentava grandes dificuldades e a função de reitor não era
nada fácil", diz o professor, pesquisador e ex-reitor da UFBA, Paulo
Miguez.
Roberto Santos foi reitor da Ufba de 1967 a 1971 - Foto: Cedoc A TARDE/Sem Data
No primeiro ano como reitor, as atividades do mestrado em
matemática tiveram início e o Conselho Universitário aprovou a criação do
sistema de pós-graduação. A partir do Decreto Federal nº 62.241, que entrou em
vigor em 8 de fevereiro de 1968, Santos reestruturou a universidade e
substituiu o antigo modelo de faculdades isoladas por institutos e unidades
integradas. Com isso, conseguiu implantar os institutos de Matemática, Física,
Química, Biologia, Geociências, Ciências da Saúde e Letras; além da Faculdade
de Educação.
Ainda em 1968, a Biblioteca Central da Ufba foi criada e a
Maternidade Climério de Oliveira foi incorporada à universidade. "A
reforma universitária foi objeto de acirradas críticas e disputas em muitos
aspectos naquele momento, o que só mostrou que era importante. Portanto, acho
que, se ao pai, Edgard Santos, cabe o mérito de ter fundado a Universidade Federal
da Bahia e, de forma sagaz, definir a sua data de criação como 2 de julho de
1946, conectando para sempre a universidade à independência; o seu filho, o
reitor Roberto Santos, encontra a universidade em outro momento da vida
política e deixa a sua marca, apesar das dificuldades", reflete Paulo
Miguez.
Durante o reitorado de Roberto Santos, a Associação dos
Professores Universitários da Bahia (Apub) e os cursos de mestrado em Ciências
Humanas, Química e Geofísica foram criados. Também foi quando circulou a
primeira edição da Revista Universitas (1968-1991).
Roberto Santos foi reitor da Ufba de 1967 a 1971 - Foto: Cedoc A TARDE/Sem Data
No último ano no cargo, 1971, o Prêmio Reitor Roberto Santos
foi lançado pela Comunidade Portuguesa da Bahia, como parte da comemoração
pelos 25 anos da Ufba. A edição de A TARDE de 3 de setembro daquele ano informa
que o prêmio de Cr$ 3.000,00 (Três Mil Cruzeiros) seria dado ao melhor
“trabalho inédito sobre qualquer aspecto das relações culturais
luso-brasileiras”.
MOTIVO DE ORGULHO
Além das contribuições para a Ufba em sua gestão, Roberto
Santos era defensor do ensino universitário com formação completa. A sua
atuação é motivo para Paulo Miguez se orgulhar de ter ocupado o mesmo cargo de
reitor, décadas depois, e de ter convivido com o professor nos anos como
vice-reitor, a partir de 2014, até a morte do médico e educador, em 2021.
"Era impressionante vê-lo aos 90 anos com cuidados que
aparentemente não estariam mais presentes na agenda de uma pessoa com tanta
história e com uma idade tão avançada. Ele se preocupava com detalhes. Como,
por exemplo, quando fomos atrás de recursos para recuperar os azulejos da
reitoria, o que felizmente conseguimos, mas infelizmente ele não esteve
presente para assistir a entrega do belo trabalho de recuperação",
recorda.
Na sua época à frente da vice-reitoria e junto com o então
reitor João Carlos Sales, Miguez sempre enviava os convites dos eventos da
universidade para Roberto Santos. “O depoimento que temos de familiares do
professor é que dois, três e até quatro dias antes do evento, ele já estava
absolutamente animado sobre todos os aspectos que envolveriam a presença dele
na tão querida universidade da qual ele foi reitor: o que iria dizer, a roupa
que iria vestir, o horário que o motorista iria levá-lo..., uma excitação
típica de quem ama uma instituição, de quem ama o trabalho de professor",
acrescenta.
CAMINHOS NA PATRIATA
Após o período como reitor, Roberto Santos enveredou na
política e, em 1975, assumiu o governo da Bahia, eleito pela Assembleia
Legislativa. Durante o seu governo, o Museu de Ciência e Tecnologia foi criado
como o primeiro da América Latina com foco na divulgação científica. Também na
sua gestão, com a Lei nº 6.344, de 6 de julho de 1976, e a partir de convênio
com o Centro de Educação Técnica da Bahia (Ceteba), foi fundado o Centro de
Educação Tecnológica da Bahia (Centec), atual Ifba. No final do mandato,
inaugurou o antigo Centro de Convenções, idealizou e fundou o Hospital Geral
Roberto Santos (HGRS). Educação e saúde eram o foco dos projetos de governo,
dando uma atenção especial à Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Ele afirmava que a RMS sofria com a falta de planejamento,
"principalmente nos setores de habitação e transporte. Além dos dois
itens, o governador apontou como problemáticas as áreas de saúde, educação e
segurança [...]. Afirmou que todo o planejamento executado na sua administração
está voltado para a solução dos aspectos mais graves daqueles problemas. Com
esse objetivo, durante os seus quatro anos de governo estão sendo investidos na
RMS cerca de Cr$ 4 bilhões", noticiou A TARDE, em 16 de agosto de 1977.
Alguns anos depois de deixar o cargo de governador, foi
nomeado presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Técnico e Científico
(CNPq), em 1985, na redemocratização do país. À frente da instituição,
direcionou políticas de apoio aos pesquisadores nacionais, ampliou bolsas e
fomentos para a pós-graduação e reestruturou carreiras científicas.
Presidiu o CNPq até 1986, quando assumiu a pasta do
Ministério da Saúde a convite do então presidente José Sarney. Alguns dos
primeiros debates sobre a saúde como um direito de todos, com a universalização
do atendimento, ideias que foram a base para a criação do Sistema Único de
Saúde (SUS), aconteceram na sua gestão da pasta. Em 1995, foi eleito deputado
federal e atuou na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática.
Participou, ainda, da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).
O HOMEM DAS LETRAS
Enquanto articulava a campanha para deputado federal, no
início de 1994, participou da homenagem ao centenário de Edgard Santos. "A
Universidade Federal da Bahia estará comemorando o 1º centenário de nascimento
do reitor Edgard Santos, seu fundador e primeiro reitor. As homenagens,
programadas por comissão instituída há mais de um ano, incluem diversas atividades
culturais e artísticas", diz A TARDE, em 4 de janeiro. Na programação
estava o lançamento de Vidas Paralelas, biografia escrita por Roberto Santos
onde ele fala sobre como sua trajetória pública se entrelaça com a do pai.
Ao longo da vida foram dezenas de obras, sem contar os
trabalhos científicos e teses. Também recebeu condecorações como a Ordem do
Mérito Educacional da Bahia (1971), Ordem do Mérito da Liga Contra o Câncer,
Grau de Comendador (1977), e a Ordem do Mérito do Instituto Butantã (1986). Era
membro da Academia de Letras da Bahia e Academia Nacional de Medicina.
Roberto Santos morreu em 9 de fevereiro de 2021, em
Salvador, aos 94 anos. "A Bahia perdeu um dos maiores homens públicos de
sua história”, noticiou A TARDE, no dia 10. Para Paulo Miguez, ainda que
Roberto Santos seja sempre rememorado como governador ou ministro, a celebração
que mais encanta a comunidade universitária é a do professor.
Hospital Geral Roberto Santos homenageia médico, reitor e governador - Foto: Luciano da Mata/Cedoc A TARDE/10.9.1995
"Do homem dedicado à ciência, que pensou ciência não só
a partir do seu laboratório, mas a partir da formulação de políticas para a
ciência. Não foi outro seu cuidado quando esteve no parlamento como deputado
federal ou presidindo o CNPq. Não há dúvida que um homem da envergadura de
Roberto Santos terá o seu centenário comemorado das mais diferentes formas, mas
a nós na Universidade Federal da Bahia encanta saber que ele é um dos seus filhos",
afirma. Fonte: A tarde/*Com a colaboração de Tallita Lopes.