Por g1, Brasília
Ceará registra menor abstenção do país com 15,5% no 1º turno das eleições de 2026. — Foto: Fabiane de Paula/ SVM
Mais de 33 milhões de pessoas não foram às urnas no primeiro
turno; proporcionalmente, eleitores do Sudeste e Centro-Oeste são os mais
faltosos. O primeiro turno das eleições terminou com 33 milhões de brasileiros
deixando de exercer o direito ao voto. Em uma eleição acirrada como a
presidencial, a abstenção impacta diretamente nos resultados: foram 21,08% dos
brasileiros que deixaram de votar neste ano. O percentual dos eleitores que não
votaram é o maior para o primeiro turno presidencial desde as eleições de 1998.
Naquele ano, com a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC), 21,49% dos
eleitores faltaram à eleição. Depois disso, houve uma recuperação, com mais
brasileiros indo às urnas escolher não só seus presidentes, como governadores,
senadores, deputados federais e estaduais.
Mas em 2018, o percentual de brasileiros que preferiram não
exercer o direito ao voto ultrapassou 20% e tem crescido pouco a pouco nos
últimos pleitos. O eleitor que não votar no primeiro turno pode sim votar no
segundo, já que, para a Justiça Eleitoral, cada turno é um novo pleito e,
portanto, faltar ao primeiro não impede que o eleitor vote no segundo. No
Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos maiores de 18 anos e menores de 70
alfabetizados, segundo a Constituição Federal. Os motivos para um eleitor
deixar de comparecer na chamada "festa da democracia" são variados.
Mas uma marca que permeou essa eleição foi o desânimo da população.
Para Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de
Brasília (UnB), o desânimo tem como um dos motivos a polarização. Com os dois
principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL),
com altos índices de rejeição, há um "ambiente de desalento" com a
política. "A percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças
concretas favorece o afastamento do eleitor das urnas. A abstenção elevada é um
sinal desse distanciamento entre a política e o eleitor", diz Medeiros. Entre
os 33 milhões deste ano, o g1 ouviu relatos de eleitores de diferentes idades,
profissões e contextos. Veja abaixo:
BUROCRACIA E FALTA DE
ACESSIBILIDADE AFATAM ELEITORES
Roberto Gepp, estudante de economia, diz que gostaria de ter
votado, mas acabou não transferindo o título de eleitor. Ele se mudou de
Brasília para São Paulo e também não poderá votar no segundo turno. Para ele,
foi uma “pena” não escolher seus representantes e afirma que o processo de
transferência do título afasta e burocratiza o voto. O prazo para transferir o
local de votação terminou no dia 6 de maio. No entanto, até o dia 20 de agosto,
eleitores que estivessem fora do domicílio eleitoral no dia das eleições
poderiam solicitar a alteração temporária do local de votação para votar em
trânsito. Ao se deparar com muitas pessoas e uma zona eleitoral que
considerou desorganizada, Henrique Eduardo Bahouth, 73 anos, desistiu de votar.
“Eu nunca deixei de votar. Esse ano, realmente, eu ainda cheguei na minha zona
eleitoral, mas estava cheia de muitas pessoas, achei muito desorganizado e eu,
em função até do dia, eu não estava bem e acabei desistindo”, disse.
Já Bianca Dantas não conseguiu votar por uma questão de
acessibilidade na seção em que iria votar. Ela conta que, após passar por uma
cirurgia no joelho duas semanas antes do primeiro turno, não conseguiu chegar à
seção eleitoral. Ao chegar ao local e se deparar com dois lances de escada,
precisou ir embora sem votar. Ela explica que não teve tempo de solicitar uma
seção com acessibilidade. “Quantas pessoas deixaram de votar por essa mesma
razão, né? Pessoas que sofreram acidentes, enfim, e isso foi muito frustrante
para mim, assim, ter que virar, estar ali na porta e ter que virar as costas e
ir embora sem poder votar”, questionou.
CRENÇA NA POLITICA
Aos 73 anos, Maria Luíza Teixeira tem o direito de deixar de
votar, mas afirma que não compareceu às urnas no primeiro turno por discordar
dos dois candidatos à Presidência, Lula e Flávio Bolsonaro. Ao g1, Maria Luíza
disse que também não pretende votar no segundo turno e que, se comparecesse às
urnas, anularia o voto. Desanimada com a política, a servidora pública Nara
Oliveira afirmou que para ela não valia a pena gastar tempo e dinheiro com o
deslocamento até o local de votação. Nara citou o caso do Banco Master para
explicar por que acredita que os políticos pensam apenas nos próprios
interesses. Na avaliação dela, a eleição resume o significado da expressão
“tanto faz”. “Qualquer um que ganhar vai pensar só nos interesses próprios, e não
vale a pena eu perder um segundo sequer da minha vida para votar em ninguém”,
afirmou.
Já a estudante Maria Júlia Costa viajou para uma cidade
distante daquela onde vota durante o primeiro turno para um evento de família e
disse que pretende participar da votação no segundo turno. A estudante afirmou
ainda que acredita “na política, no poder do voto e na cidadania”.
RAIO-X DA ABSTENÇÃO
A abstenção de 21,08% deste ano seguiu o ritmo de
crescimento da ausência no primeiro turno dos últimos anos. Em 2022, o segundo
turno não teve um movimento para que mais pessoas fossem às urnas escolher um
presidente, segundo dados do TSE. Ainda assim, levar esses eleitores a
reconsiderarem e votarem é uma das estratégias de comunicação do presidente
Lula, que saiu em desvantagem da primeira etapa de votação. Medeiros indica que
esse será um dos maiores desafios a partir de agora.
"O segundo turno acende um alerta ainda maior para a
abstenção. Com 21 governos estaduais definidos, a eleição presidencial será a
única disputa em grande parte do país", explica o cientista político. "Isso
esvazia a mobilização política nos estados, desestimula o engajamento das
lideranças locais e enfraquece as estruturas de campanha responsáveis por levar
o eleitor às urnas", disse Medeiros.
Dados do TSE mostram que os maiores percentuais de eleitores
que deixaram de votar são das regiões: 15 milhões de eleitores do Sudeste
(22,7%) e 2,6 milhões do Centro-Oeste (21,7%). "Aumentar o comparecimento,
portanto, não significa aumentar os votos de Lula. Tudo depende do perfil
político de quem ficou em casa", afirmou Medeiros. Já no Nordeste, região
que votou em sua maioria em Lula, 18,4% dos eleitores deixaram de comparecer às
urnas. O contingente representa 8 milhões de eleitores.
Levar esse eleitor às urnas, no entanto, representa um
desafio para as campanhas que buscam ampliar o número de votos. "Embora o
voto seja obrigatório no Brasil, a multa pelo não comparecimento é irrisória. O
custo e as dificuldades para chegar às urnas, especialmente para eleitores de
renda mais baixa, superam o valor da própria penalidade", explica. Fonte:g1