Por De Olho na Cidade
Foto: De Olho na Cidade
A
empreendedora Claudiana Nascimento, moradora do distrito da Matinha, na zona
rural de Feira de Santana, compartilhou em entrevista à série especial Março
Mulher no programa De Olho na Cidade, uma história marcada por dor, superação e
recomeço. Após anos vivendo em relacionamentos abusivos e enfrentando
diferentes tipos de violência, ela decidiu romper o ciclo e reconstruir a
própria vida, tornando-se hoje uma referência de empreendedorismo e incentivo a
outras mulheres. Claudiana revelou que enfrentou diversas formas de agressão ao
longo da vida conjugal. “Eu experimentei todos os tipos de violência possíveis:
física, moral, psicológica e patrimonial. Trabalhava, ajudava a sustentar a
casa e ainda apanhava por isso”, relatou.
Segundo
ela, a mudança começou há cerca de cinco anos, quando decidiu buscar ajuda
profissional. A terapia foi o primeiro passo para reconhecer a situação e tomar
a decisão de romper com o ciclo de violência. “Chegou um momento em que eu
disse: chega, eu não mereço isso. A gente vai perdoando, acreditando que a
pessoa vai mudar, mas a violência sempre volta. Foi quando procurei terapia e
decidi dar um basta”, contou.
Claudiana
também destacou que parte das dificuldades emocionais que enfrentou teve origem
na infância. Os pais se separaram quando ela tinha sete anos e o pai ficou
ausente por 35 anos. “Durante muito tempo eu dizia que não tinha pai. Na
terapia eu descobri que buscava nos relacionamentos a presença paterna que não
tive, muitas vezes em homens mais velhos e autoritários”, explicou. Ela afirma
que a referência de relacionamento que presenciou na infância também
influenciou sua vida adulta. “Até os sete anos eu via as brigas dos meus pais.
Aquela era a referência que eu tinha, e acabei repetindo esse padrão nos meus
relacionamentos”, disse.
Entre
os episódios mais marcantes, Claudiana lembra agressões físicas sofridas
durante a gestação e até após o nascimento de uma das filhas. “Tenho marcas no
corpo. Já fui queimada com ferro porque não quis ter relação. Fui arrastada
pelos cabelos quando estava grávida de sete meses dentro de um supermercado”. Ela
critica a antiga expressão popular de que “em briga de marido e mulher não se
mete a colher”.
“Tem
que meter a colher sim. Naquele momento uma gestante estava sendo violentada e
ninguém fez nada”, afirmou. Segundo Claudiana, a ajuda de vizinhos foi
essencial para que ela buscasse atendimento e começasse a reagir. “Foi um
vizinho que me levou ao hospital e me incentivou a denunciar. Essa rede de apoio
foi fundamental”, destacou.
REDE DE APOIO E
CONSCIENTIZAÇÃO
Hoje,
além de empreendedora, Claudiana também procura orientar mulheres que passam
por situações semelhantes, especialmente na zona rural. Ela contou um caso que
presenciou em seu estabelecimento, envolvendo uma jovem vítima de agressões. “Uma
cliente sempre reclamava de dores na barriga. Quando conversei com ela em
particular, vi que estava toda roxa. O marido batia naquela região para que ninguém
percebesse”, relatou.
Para
Claudiana, a falta de apoio familiar ainda é um grande obstáculo para que
muitas mulheres denunciem. “Muitas chegam à delegacia sem nada, só com a roupa
do corpo. Algumas nem sabem mais quem são, porque perderam a própria identidade
dentro do relacionamento”, afirmou.
RECOCIALIÇÃO COMO O
PASSADO
Um
dos momentos decisivos para sua superação foi o reencontro com o pai após 35
anos.
Sem
saber o endereço, ela decidiu procurá-lo em outra cidade. O encontro trouxe uma
resposta que ela aguardava há décadas. “Ele não disse ‘eu te amo’, mas tirou do
carro um caderno com uma foto minha da formatura e disse: ‘filha, para onde eu
vou, levo você comigo’. Aquilo foi o ‘eu te amo’ que eu esperei por 35 anos”,
contou.
Após
esse momento, ela afirma ter sentido que finalmente havia encerrado um ciclo.
“Eu
disse para mim mesma: agora estou curada. Agora ninguém me machuca mais”,
declarou.
Trabalho,
empreendedorismo e novos projetos
Depois
de deixar o último relacionamento abusivo, Claudiana passou três anos focada
exclusivamente no trabalho e na criação das filhas.
Nesse
período, desenvolveu diversos projetos comunitários e iniciativas voltadas ao empreendedorismo
local.
“Peguei
toda aquela dor e transformei em ações que pudessem melhorar a vida de outras
pessoas. E, enquanto ajudava os outros, eu também ia me curando”, explicou.
Além
do trabalho como empreendedora, Claudiana também decidiu retomar os estudos. Em
2026, ela ingressou em um novo curso superior.
“Passei
em segundo lugar no vestibular e hoje sou caloura aos 47 anos. Não deixei que
as palavras ‘burra’ e ‘imprestável’, que ouvi tantas vezes, tomassem conta da
minha mente”, afirmou.
Ela
cursa Educação do Campo com ênfase em Ciências da Natureza, com o objetivo de
desenvolver projetos voltados à agricultura e produção rural na comunidade da
Matinha.
“Quero
trabalhar com quintais produtivos e flores ornamentais. Esse é um sonho que estou
realizando agora”, disse.
Claudiana
deixou um recado para mulheres que ainda vivem em relacionamentos violentos.
“Reflitam
sobre o objetivo de vida de vocês. Busquem ajuda, seja na família ou em órgãos
de proteção. Hoje existem políticas públicas e instituições que podem apoiar. Você
não está sozinha”, afirmou.
Para
ela, o primeiro passo é reconhecer o próprio valor.
“A
gente precisa primeiro aprender a se amar para depois permitir ser amada”,
concluiu. Foto: De na Cidade.