terça-feira, 17 de março de 2026

DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA AO EMPREENDEDORISMO: EMPRESÁRIA NA ZONA RURAL DE FEIRA SANTANA INSPIRA MULHERES A RECOMEÇAR

Por De Olho na Cidade

Foto: De Olho na Cidade

A empreendedora Claudiana Nascimento, moradora do distrito da Matinha, na zona rural de Feira de Santana, compartilhou em entrevista à série especial Março Mulher no programa De Olho na Cidade, uma história marcada por dor, superação e recomeço. Após anos vivendo em relacionamentos abusivos e enfrentando diferentes tipos de violência, ela decidiu romper o ciclo e reconstruir a própria vida, tornando-se hoje uma referência de empreendedorismo e incentivo a outras mulheres. Claudiana revelou que enfrentou diversas formas de agressão ao longo da vida conjugal. “Eu experimentei todos os tipos de violência possíveis: física, moral, psicológica e patrimonial. Trabalhava, ajudava a sustentar a casa e ainda apanhava por isso”, relatou.

Segundo ela, a mudança começou há cerca de cinco anos, quando decidiu buscar ajuda profissional. A terapia foi o primeiro passo para reconhecer a situação e tomar a decisão de romper com o ciclo de violência. “Chegou um momento em que eu disse: chega, eu não mereço isso. A gente vai perdoando, acreditando que a pessoa vai mudar, mas a violência sempre volta. Foi quando procurei terapia e decidi dar um basta”, contou.

Claudiana também destacou que parte das dificuldades emocionais que enfrentou teve origem na infância. Os pais se separaram quando ela tinha sete anos e o pai ficou ausente por 35 anos. “Durante muito tempo eu dizia que não tinha pai. Na terapia eu descobri que buscava nos relacionamentos a presença paterna que não tive, muitas vezes em homens mais velhos e autoritários”, explicou. Ela afirma que a referência de relacionamento que presenciou na infância também influenciou sua vida adulta. “Até os sete anos eu via as brigas dos meus pais. Aquela era a referência que eu tinha, e acabei repetindo esse padrão nos meus relacionamentos”, disse.

Entre os episódios mais marcantes, Claudiana lembra agressões físicas sofridas durante a gestação e até após o nascimento de uma das filhas. “Tenho marcas no corpo. Já fui queimada com ferro porque não quis ter relação. Fui arrastada pelos cabelos quando estava grávida de sete meses dentro de um supermercado”. Ela critica a antiga expressão popular de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

“Tem que meter a colher sim. Naquele momento uma gestante estava sendo violentada e ninguém fez nada”, afirmou. Segundo Claudiana, a ajuda de vizinhos foi essencial para que ela buscasse atendimento e começasse a reagir. “Foi um vizinho que me levou ao hospital e me incentivou a denunciar. Essa rede de apoio foi fundamental”, destacou.

REDE DE APOIO E CONSCIENTIZAÇÃO

Hoje, além de empreendedora, Claudiana também procura orientar mulheres que passam por situações semelhantes, especialmente na zona rural. Ela contou um caso que presenciou em seu estabelecimento, envolvendo uma jovem vítima de agressões. “Uma cliente sempre reclamava de dores na barriga. Quando conversei com ela em particular, vi que estava toda roxa. O marido batia naquela região para que ninguém percebesse”, relatou.

Para Claudiana, a falta de apoio familiar ainda é um grande obstáculo para que muitas mulheres denunciem. “Muitas chegam à delegacia sem nada, só com a roupa do corpo. Algumas nem sabem mais quem são, porque perderam a própria identidade dentro do relacionamento”, afirmou.

RECOCIALIÇÃO COMO O PASSADO

Um dos momentos decisivos para sua superação foi o reencontro com o pai após 35 anos.

Sem saber o endereço, ela decidiu procurá-lo em outra cidade. O encontro trouxe uma resposta que ela aguardava há décadas. “Ele não disse ‘eu te amo’, mas tirou do carro um caderno com uma foto minha da formatura e disse: ‘filha, para onde eu vou, levo você comigo’. Aquilo foi o ‘eu te amo’ que eu esperei por 35 anos”, contou.

Após esse momento, ela afirma ter sentido que finalmente havia encerrado um ciclo.

“Eu disse para mim mesma: agora estou curada. Agora ninguém me machuca mais”, declarou.

Trabalho, empreendedorismo e novos projetos

Depois de deixar o último relacionamento abusivo, Claudiana passou três anos focada exclusivamente no trabalho e na criação das filhas.

Nesse período, desenvolveu diversos projetos comunitários e iniciativas voltadas ao empreendedorismo local.

“Peguei toda aquela dor e transformei em ações que pudessem melhorar a vida de outras pessoas. E, enquanto ajudava os outros, eu também ia me curando”, explicou.

Além do trabalho como empreendedora, Claudiana também decidiu retomar os estudos. Em 2026, ela ingressou em um novo curso superior.

“Passei em segundo lugar no vestibular e hoje sou caloura aos 47 anos. Não deixei que as palavras ‘burra’ e ‘imprestável’, que ouvi tantas vezes, tomassem conta da minha mente”, afirmou.

Ela cursa Educação do Campo com ênfase em Ciências da Natureza, com o objetivo de desenvolver projetos voltados à agricultura e produção rural na comunidade da Matinha.

“Quero trabalhar com quintais produtivos e flores ornamentais. Esse é um sonho que estou realizando agora”, disse.

Claudiana deixou um recado para mulheres que ainda vivem em relacionamentos violentos.

“Reflitam sobre o objetivo de vida de vocês. Busquem ajuda, seja na família ou em órgãos de proteção. Hoje existem políticas públicas e instituições que podem apoiar. Você não está sozinha”, afirmou.

Para ela, o primeiro passo é reconhecer o próprio valor.

“A gente precisa primeiro aprender a se amar para depois permitir ser amada”, concluiu. Foto: De na Cidade.