Por Tribuna da Bahia
Foto: Reprodução / Perfil Brasil
A participação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, nas
negociações com o governo federal foi encoberta pela empresária Roberta
Luchsinger, amiga dele, e pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o
"Careca do INSS". A PF apura um suposto tráfico de influência de Lulinha
para abrir as portas da gestão do pai a Luchsinger, de quem é amigo. O GLOBO
teve acesso a documentos que integram a investigação. A tentativa de encobrir a
atuação de Lulinha na investida para emplacar contratos no Ministério da Saúde
e em outros órgãos públicos aparece em mensagens enviadas por Roberta a
interlocutores e em depoimentos de testemunha, segundo a Policia Federal.
"Registra-se, ainda, a reiterada preocupação
demonstrada pelos investigados em ocultar a associação entre ambos e a
participação de um terceiro, cuja identidade, segundo fontes autônomas e
independentes, apontaria para indivíduo de elevada relevância política, por ser
filho do presidente da República", afirmou a Polícia Federal em relatório,
em referência a Lulinha. Lulinha, Roberta e o empresário Fernando Bittar, que
já foi sócio do filho do presidente, tinham um grupo no WhatsApp para tratar
das negociações com o governo, segundo a investigação. O objetivo era que as
movimentações ocorressem sem chamar a atenção para o primogênito de Lula.
“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa.
Tem que se preservar”, escreveu Roberta em 21 de janeiro de 2024 a um
interlocutor. Pouco mais de dois meses depois, em 6 de março, a empresária
avisou a Lulinha que havia chegado a Brasília para uma reunião no Ministério da
Saúde com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, conhecido
como "Berge". “Pousei. Vou lá no Berge”, disse Luchsinger. “Que
ótimo. Vai com tudo. Manda beijo para o Berge e fala que não fui porque vc não
chamou”, ironizou Lulinha. O grupo tentava emplacar a venda de canabidiol, em
um negócio que não foi concretizado.
As mensagens mostram que Lulinha interferiu para que o
encontro acontecesse, e a agenda foi marcada por Marco Aurélio Santana Ribeiro,
o Marcola, então chefe de gabinete de Lula. Dois meses depois da reunião, em 13
de maio, Luchsinger disse a Marcola que “temos que colocar Fábio em cima do
Berge”, em nova menção a Lulinha e ao então número dois da pasta. Já em 22 de
março de 2024, outra conversa mostra a proximidade entre os dois. “Nosso nível
tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom (sic). Esse povo aqui tá
em outra vibe”, diz a empresária. O filho do presidente responde em seguida:
“Isso. Deixa eles. Trabalho para caralho e nunca dá em nada”.
Como mostrou O GLOBO, Luchsinger pretendia vender 1,2 milhão
de frascos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, em uma
transação que poderia render até R$ 626 milhões. Uma minuta sobre a negociação
foi enviada pela empresária a Marcola. A pasta, por sua vez, informou que
"nunca houve possibilidade de compra de canabidiol, uma vez que o produto
sequer está incorporado ao SUS". A defesa de Lulinha afirmou que
"reafirma sua confiança nas instâncias formais e adequadas de apuração dos
fatos e se manifestará nos autos em momento adequado, somente após o acesso
integral aos dados obtidos pelas quebras de sigilo". Os advogados pontuaram
ainda que solicitarão, "uma vez mais, rígidas apurações da nefasta
instrumentalização de parte das nossas instituições por interesses políticos e
eleitorais".
Já os advogados de Marcola, por sua vez, afirmaram que o
“vazamento seletivo de trechos da documentação, em vez da totalidade do
conteúdo, tem objetivo de distorcer os fatos e interferir no processo
eleitoral”. A defesa diz ainda que o ex-chefe de gabinete nunca “encaminhou
qualquer documento referente a compras ou licitações no âmbito do Ministério da
Saúde ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”.
“NÚCLEO POLÍTICO”
Segundo a investigação, Luchsinger recebeu repasses de
Antunes que somam R$ 1,5 milhão e seriam referentes a serviços de consultoria
para viabilizar contratos no governo federal. Em uma das transferências, o
empresário informou a um interlocutor que o dinheiro era destinado ao
"filho do rapaz", possivelmente em referência a Lulinha, segundo a
PF. O inquérito aponta ainda que Luchsinger faria parte do "núcleo
político" da suposta organização criminosa. O lobista está preso por
participação no esquema de fraudes do INSS. A defesa dele afirma que não vai se
manifestar “até que tenha acesso integral ao conteúdo dos celulares apreendidos
na investigação”.
“Roberta apresenta-se como pessoa com acesso a estruturas de
poder capazes de influenciar decisões de natureza política, ainda que de
alcance restrito, circunstância que lhe confere relevância em ambientes de
negócios que se beneficiam dessa proximidade”, acrescenta a Polícia Federal em relatório. A
defesa dela nega irregularidades e pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal (STF), o trancamento do inquérito que investiga as suspeitas
envolvendo Luchsinger, Lulinha e Antunes.
Os advogados sustentam que as provas são ilícitas porque
teriam sido obtidas a partir da exploração de mensagens e demais arquivos dela
para um objetivo diferente do que havia sido autorizado por Mendonça ao
determinar a quebra de sigilo. Com isso, a defesa pretende anular mensagens e
demais provas que tenham sido obtidas a partir do acesso ao celular, outros
equipamentos eletrônicos e dados na nuvem.
A petição apresentada ao Supremo Tribunal Federal alega que a Polícia Federal, quando pediu a
quebra de sigilo relacionada às investigações sobre fraudes no INSS, já
suspeitava da atuação de Luchsinger, Lulinha e de Antunes junto a outros órgãos
do governo federal. A defesa, portanto, sustenta que o pedido seria uma
"pesca probatória" para, em um inquérito já formalizado, conseguir
informações para outra linha investigativa, o que os advogados afirmam ser
ilegal. Fonte Tribuna da Bahia.