quarta-feira, 13 de maio de 2026

PRIMEIRA FACULDADE DE MEDICINA DO BRASIL PEDE SOCORRO

Por Por Rayllanna Lima/Tribuna da Bahia

A deterioração da Faculdade de Medicina da Bahia (FMB-UFBA), no Terreiro de Jesus, em Salvador, chegou a um ponto que já ameaça não apenas um dos patrimônios universitários mais importantes do país, mas também o funcionamento da própria instituição. Com áreas interditadas, prédios em ruínas, infiltrações, risco estrutural e um dos maiores acervos médicos do Brasil em situação precária, direção, professores e ex-alunos intensificaram uma mobilização nacional para tentar viabilizar a restauração da primeira escola médica do país, fundada em 1808 por Dom João VI. A situação mais crítica envolve o Salão Nobre e a Sala da Congregação, interditados por questões de segurança, além de estruturas como o Pavilhão Barão de Itapoan e outros anexos em estado avançado de degradação. A preocupação também atinge a Bibliotheca Gonçalo Moniz, considerada um dos maiores acervos históricos da medicina brasileira, com obras raras, teses e documentos utilizados por pesquisadores de diversas áreas. 

A reportagem da Tribuna da Bahia esteve na sede da faculdade e acompanhou de perto o estado de deterioração de parte do complexo histórico. Durante a visita, a equipe conversou com o diretor da instituição, o professor Antônio Alberto da Silva Lopes, além de representantes da ALUMNI (Associação dos Ex-Alunos e Amigos da Faculdade de Medicina da Bahia), entre eles o presidente Antonio Carlos Vieira Lopes e o vice-presidente Jadelson Andrade. Localizada no coração do Centro Histórico, a sede da faculdade concentra atualmente a diretoria, setores administrativos, colegiados, departamentos, cursos de pós-graduação, ambulatórios e parte das atividades acadêmicas. O curso de Terapia Ocupacional chegou a ser transferido para outra unidade da UFBA após preocupações relacionadas à segurança estrutural.

PATRIMÔNIO HISTÓRICO SOB AMEAÇA

“A Faculdade de Medicina da Bahia não é importante apenas por formar médicos. Foi daqui que surgiram os primeiros médicos, pesquisadores e grandes nomes da medicina brasileira. Esse prédio faz parte da própria história da fundação de Salvador e da construção do ensino universitário no país”, afirmou o diretor da FMB-UFBA, o médico Antonio Alberto da Silva Lopes, em entrevista à Tribuna da Bahia. Segundo ele, desde que assumiu a direção da faculdade, em 2023, a gestão passou a intensificar ofícios, articulações institucionais e mobilizações em busca de apoio para restaurar o complexo histórico. “A preservação desse prédio é uma obrigação de todos nós. Não apenas da Faculdade de Medicina ou da UFBA. Aqui existe ensino, pesquisa, atendimento à população, memória científica e patrimônio cultural. Alguns prédios estão em total ruína e a Faculdade de Medicina da Bahia pede socorro”, declarou. 

O diretor explica que a degradação se agravou após décadas de manutenção insuficiente em um complexo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco dentro do conjunto arquitetônico do Centro Histórico de Salvador. A crise ganhou maior repercussão pública no início deste ano, após a direção denunciar o risco estrutural do prédio e iniciar articulações junto ao governo federal, Ministério da Cultura, Ministério da Educação (MEC), Iphan e parlamentares baianos. Desde então, reuniões foram realizadas em Brasília com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, além de representantes do MEC e da bancada federal da Bahia.

OBRAS SEGUEM SEM COMEÇAR

De acordo com Antonio Alberto, a mobilização já garantiu um primeiro aporte de aproximadamente R$1 milhão por meio do Iphan para início das contratações técnicas voltadas aos projetos de recuperação estrutural do complexo. Paralelamente, está sendo estruturado um plano emergencial para recuperar áreas consideradas prioritárias, entre elas o Salão Nobre, a Bibliotheca Gonçalo Moniz e o Anfiteatro Carneiro de Campos. Mesmo assim, as obras ainda não começaram. O processo atual envolve inspeções técnicas, diagnósticos estruturais e elaboração dos projetos executivos que irão definir o custo total da restauração. Apenas uma das inspeções iniciais previstas para três setores prioritários foi orçada em cerca de R$ 250 mil, segundo a diretoria da faculdade.

“Existe uma mobilização hoje que não existia antes. O movimento está andando, mas a obra ainda não começou”, afirmou o diretor. A expectativa da faculdade é que o valor global da recuperação possa alcançar dezenas de milhões de reais. Estimativas preliminares discutidas internamente apontam que a recuperação completa do complexo pode alcançar R$70 milhões. Vice-presidente da ALUMNI, o cardiologista e membro da Academia de Medicina da Bahia Jadelson Pinheiro de Andrade, afirma que a campanha tenta transformar a preservação da faculdade em uma causa pública nacional. “Estamos pedindo socorro à população da Bahia, à população brasileira, à classe médica, ao governo municipal, estadual e federal. A grandiosidade desse prédio é tão grande que estamos pedindo socorro a todo mundo”, disse à Tribuna.

MEMÓRIA CIENTIFICA AMEAÇADA

Além do patrimônio arquitetônico, a mobilização também tenta evitar perdas irreversíveis para a memória científica do país. A faculdade foi responsável pela formação de alguns dos principais nomes da medicina brasileira e teve participação histórica em pesquisas sobre doenças como esquistossomose, doença de Chagas, tuberculose e psiquiatria. Entre os ex-alunos está o médico Juliano Moreira, considerado o pai da psiquiatria brasileira. O complexo abriga ainda museus, obras de arte, esculturas históricas e centros de pesquisa ativos. Um deles é o Centro Internacional de Estudos e Pesquisa em Saúde da População Negra e Indígena, criado em 2023 pela atual gestão e voltado ao estudo de doenças que atingem de forma mais prevalente essas populações, em parceria com instituições nacionais e internacionais.

Em entrevista à Tribuna da Bahia, o presidente da ALUMNI, Antonio Carlos Vieira Lopes, disse que o cenário vivido pela instituição reflete um problema estrutural que atinge patrimônios universitários históricos em todo o país.  “O Brasil reconhece seus patrimônios históricos, mas não consegue garantir a manutenção deles. Um exemplo é o que está acontecendo com a Escola de Medicina em Recife, que também enfrenta degradação severa. A sede da faculdade é aqui. É onde funciona a diretoria, os colegiados, os departamentos, cursos de pós-graduação, ambulatórios e atividades acadêmicas. Se isso aqui fecha, vai ser um caos. A biblioteca está caindo. Existe uma riqueza extraordinária de documentos, teses e materiais históricos em situação precária”, lamentou. Fonte da Informação Tribuna da Bahia