sábado, 12 de setembro de 2026

ROBERTO SANTOS, O HOMEM PÚBLICO QUE AMAVA A CIÊNCIA

 Por A tarde

Governador Roberto Santos lê edição especial de A TARDE sobre RMS - Foto: Cedoc A TARDE/15.8.1977

Médico, professor universitário e político, Roberto Santos deixou sua marca na história. Aos 30 anos, já era professor catedrático da Faculdade de Medicina da Bahia e, ao longo da carreira, assumiu cargos de grande relevância. Foi reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), governador do estado, ministro da Saúde e deputado federal. Em 15 de setembro ele faria 100 anos. Para marcar o centenário de seu nascimento, A TARDE Memória relembra a trajetória do educador, incentivador da ciência e figura pública baiana.

Filho de Carmen Figueira Santos e Edgard Rêgo Santos, criador, patrono e primeiro reitor da Ufba, Roberto Santos nasceu em 1926, em Salvador, e, desde cedo, demonstrou aptidão e disciplina nos estudos. Como relembra Eliane Azevedo, membro da Academia de Medicina da Bahia, no artigo Tributo ao Professor Roberto Santos - Homem de Ciência, aos 11 anos ele montou um laboratório de química no porão de casa, com a ajuda da mãe, que comprou os reagentes e demais itens para as experiências do garoto.

Anos depois, ao prestar vestibular para medicina, alcançou as notas máximas das provas. Formou-se em 1949, aos 23 anos, e iniciou as carreiras de médico, professor e pesquisador. Aos 30, foi nomeado professor catedrático de Clínica Médica na mesma instituição onde se graduou. Desenvolveu diversas pesquisas no Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes/UFBA), popularmente conhecido como Hospital das Clínicas, e expandiu a atuação para universidades estrangeiras como Harvard e Cornell (EUA).

Em Cornell, foi professor visitante de Clínica Médica. Também foi bolsista de pesquisa no Departamento de Medicina Experimental da Universidade de Cambridge (Inglaterra). Com a reputação construída na Bahia e no exterior, em 1964 passou a integrar o Conselho Federal de Educação, presidindo a instituição de 1971 a 1974. Antes disso, a partir de 1968, presidiu a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) e ocupou um assento no Conselho de Ensino Superior das Repúblicas Americanas, em Nova York (EUA).

OS ANOS NA REITORIA

Na Bahia, foi convidado pelo então governador Luís Viana Filho para assumir a Secretaria de Saúde do Estado, em 1967, cargo que ocupou por pouco tempo, pois foi nomeado reitor da Ufba. A reitoria permitiu-lhe ampliar a atuação na gestão acadêmica e fortalecer a instituição como referência em ensino e pesquisa, mesmo diante das dificuldades da ditadura implantada em 1964.

“O professor Roberto Santos ocupa a reitoria da Universidade Federal da Bahia num momento muito difícil da vida brasileira e para todo o espaço de pensamento crítico e tentativa de exercício democrático. Por ser uma instituição dedicada à palavra, ao estudo, à pesquisa, à reflexão e à crítica, a universidade enfrentava grandes dificuldades e a função de reitor não era nada fácil", diz o professor, pesquisador e ex-reitor da UFBA, Paulo Miguez.

Roberto Santos foi reitor da Ufba de 1967 a 1971 - Foto: Cedoc A TARDE/Sem Data

No primeiro ano como reitor, as atividades do mestrado em matemática tiveram início e o Conselho Universitário aprovou a criação do sistema de pós-graduação. A partir do Decreto Federal nº 62.241, que entrou em vigor em 8 de fevereiro de 1968, Santos reestruturou a universidade e substituiu o antigo modelo de faculdades isoladas por institutos e unidades integradas. Com isso, conseguiu implantar os institutos de Matemática, Física, Química, Biologia, Geociências, Ciências da Saúde e Letras; além da Faculdade de Educação.

Ainda em 1968, a Biblioteca Central da Ufba foi criada e a Maternidade Climério de Oliveira foi incorporada à universidade. "A reforma universitária foi objeto de acirradas críticas e disputas em muitos aspectos naquele momento, o que só mostrou que era importante. Portanto, acho que, se ao pai, Edgard Santos, cabe o mérito de ter fundado a Universidade Federal da Bahia e, de forma sagaz, definir a sua data de criação como 2 de julho de 1946, conectando para sempre a universidade à independência; o seu filho, o reitor Roberto Santos, encontra a universidade em outro momento da vida política e deixa a sua marca, apesar das dificuldades", reflete Paulo Miguez.

Durante o reitorado de Roberto Santos, a Associação dos Professores Universitários da Bahia (Apub) e os cursos de mestrado em Ciências Humanas, Química e Geofísica foram criados. Também foi quando circulou a primeira edição da Revista Universitas (1968-1991).


Roberto Santos foi reitor da Ufba de 1967 a 1971 - Foto: Cedoc A TARDE/Sem Data

No último ano no cargo, 1971, o Prêmio Reitor Roberto Santos foi lançado pela Comunidade Portuguesa da Bahia, como parte da comemoração pelos 25 anos da Ufba. A edição de A TARDE de 3 de setembro daquele ano informa que o prêmio de Cr$ 3.000,00 (Três Mil Cruzeiros) seria dado ao melhor “trabalho inédito sobre qualquer aspecto das relações culturais luso-brasileiras”.

MOTIVO DE ORGULHO

Além das contribuições para a Ufba em sua gestão, Roberto Santos era defensor do ensino universitário com formação completa. A sua atuação é motivo para Paulo Miguez se orgulhar de ter ocupado o mesmo cargo de reitor, décadas depois, e de ter convivido com o professor nos anos como vice-reitor, a partir de 2014, até a morte do médico e educador, em 2021.

"Era impressionante vê-lo aos 90 anos com cuidados que aparentemente não estariam mais presentes na agenda de uma pessoa com tanta história e com uma idade tão avançada. Ele se preocupava com detalhes. Como, por exemplo, quando fomos atrás de recursos para recuperar os azulejos da reitoria, o que felizmente conseguimos, mas infelizmente ele não esteve presente para assistir a entrega do belo trabalho de recuperação", recorda.

Na sua época à frente da vice-reitoria e junto com o então reitor João Carlos Sales, Miguez sempre enviava os convites dos eventos da universidade para Roberto Santos. “O depoimento que temos de familiares do professor é que dois, três e até quatro dias antes do evento, ele já estava absolutamente animado sobre todos os aspectos que envolveriam a presença dele na tão querida universidade da qual ele foi reitor: o que iria dizer, a roupa que iria vestir, o horário que o motorista iria levá-lo..., uma excitação típica de quem ama uma instituição, de quem ama o trabalho de professor", acrescenta.

CAMINHOS NA PATRIATA

Após o período como reitor, Roberto Santos enveredou na política e, em 1975, assumiu o governo da Bahia, eleito pela Assembleia Legislativa. Durante o seu governo, o Museu de Ciência e Tecnologia foi criado como o primeiro da América Latina com foco na divulgação científica. Também na sua gestão, com a Lei nº 6.344, de 6 de julho de 1976, e a partir de convênio com o Centro de Educação Técnica da Bahia (Ceteba), foi fundado o Centro de Educação Tecnológica da Bahia (Centec), atual Ifba. No final do mandato, inaugurou o antigo Centro de Convenções, idealizou e fundou o Hospital Geral Roberto Santos (HGRS). Educação e saúde eram o foco dos projetos de governo, dando uma atenção especial à Região Metropolitana de Salvador (RMS).

Ele afirmava que a RMS sofria com a falta de planejamento, "principalmente nos setores de habitação e transporte. Além dos dois itens, o governador apontou como problemáticas as áreas de saúde, educação e segurança [...]. Afirmou que todo o planejamento executado na sua administração está voltado para a solução dos aspectos mais graves daqueles problemas. Com esse objetivo, durante os seus quatro anos de governo estão sendo investidos na RMS cerca de Cr$ 4 bilhões", noticiou A TARDE, em 16 de agosto de 1977.

Alguns anos depois de deixar o cargo de governador, foi nomeado presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Técnico e Científico (CNPq), em 1985, na redemocratização do país. À frente da instituição, direcionou políticas de apoio aos pesquisadores nacionais, ampliou bolsas e fomentos para a pós-graduação e reestruturou carreiras científicas.

Presidiu o CNPq até 1986, quando assumiu a pasta do Ministério da Saúde a convite do então presidente José Sarney. Alguns dos primeiros debates sobre a saúde como um direito de todos, com a universalização do atendimento, ideias que foram a base para a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), aconteceram na sua gestão da pasta. Em 1995, foi eleito deputado federal e atuou na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. Participou, ainda, da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

O HOMEM DAS LETRAS

Enquanto articulava a campanha para deputado federal, no início de 1994, participou da homenagem ao centenário de Edgard Santos. "A Universidade Federal da Bahia estará comemorando o 1º centenário de nascimento do reitor Edgard Santos, seu fundador e primeiro reitor. As homenagens, programadas por comissão instituída há mais de um ano, incluem diversas atividades culturais e artísticas", diz A TARDE, em 4 de janeiro. Na programação estava o lançamento de Vidas Paralelas, biografia escrita por Roberto Santos onde ele fala sobre como sua trajetória pública se entrelaça com a do pai.

Ao longo da vida foram dezenas de obras, sem contar os trabalhos científicos e teses. Também recebeu condecorações como a Ordem do Mérito Educacional da Bahia (1971), Ordem do Mérito da Liga Contra o Câncer, Grau de Comendador (1977), e a Ordem do Mérito do Instituto Butantã (1986). Era membro da Academia de Letras da Bahia e Academia Nacional de Medicina.

Roberto Santos morreu em 9 de fevereiro de 2021, em Salvador, aos 94 anos. "A Bahia perdeu um dos maiores homens públicos de sua história”, noticiou A TARDE, no dia 10. Para Paulo Miguez, ainda que Roberto Santos seja sempre rememorado como governador ou ministro, a celebração que mais encanta a comunidade universitária é a do professor.

Hospital Geral Roberto Santos homenageia médico, reitor e governador - Foto: Luciano da Mata/Cedoc A TARDE/10.9.1995

"Do homem dedicado à ciência, que pensou ciência não só a partir do seu laboratório, mas a partir da formulação de políticas para a ciência. Não foi outro seu cuidado quando esteve no parlamento como deputado federal ou presidindo o CNPq. Não há dúvida que um homem da envergadura de Roberto Santos terá o seu centenário comemorado das mais diferentes formas, mas a nós na Universidade Federal da Bahia encanta saber que ele é um dos seus filhos", afirma. Fonte: A tarde/*Com a colaboração de Tallita Lopes.