Por De Olho na Cidade
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Um estudo internacional publicado na revista científica BMJ
Evidence Based Medicine reforça que o consumo de álcool, mesmo em pequenas
quantidades, pode estar associado ao aumento do risco de demência ao longo da
vida. A pesquisa, conduzida com dados de mais de 559 mil participantes de
grandes biobancos do Reino Unido e dos Estados Unidos, concluiu que não há
evidência de um nível seguro de ingestão de álcool para o cérebro.
Segundo os pesquisadores da Universidade de Oxford, a
análise genética e observacional indica que o risco cresce de forma linear
conforme aumenta o consumo, sem qualquer efeito protetor em doses baixas. Para
o neurologista Silvério Calaca, os achados reforçam o impacto direto do álcool
no sistema nervoso. Ele explica que a substância atua de forma múltipla no
cérebro. “O álcool pode agir por várias formas no sistema nervoso. Ele tem
efeito neurotóxico direto, causa inflamação, estresse oxidativo, altera
neurotransmissores, piora a qualidade do sono e ainda afeta pequenos vasos
cerebrais, reduzindo o fluxo sanguíneo”, afirmou.
Segundo o especialista, esses efeitos acumulados ao longo do
tempo podem levar a alterações estruturais importantes no cérebro. “Com o tempo
isso pode levar à perda de volume cerebral, alteração da substância branca e
pior funcionamento das redes neurais ligadas à memória, atenção e funções
executivas”, destacou.
MITO DO CONSUMO MODERADO
O estudo também contesta a ideia, difundida por anos, de que
o consumo moderado de álcool poderia ser protetor contra demência. De acordo
com os pesquisadores, essa percepção pode ter surgido de um fenômeno
estatístico conhecido como causalidade reversa. Isso ocorre porque pessoas que
já estão em fase inicial de declínio cognitivo tendem a reduzir o consumo de
álcool, o que pode distorcer os resultados de pesquisas observacionais.
Dr. Silvério reforça essa leitura e alerta que o chamado
“beber social” também não está isento de riscos. “Essa ideia veio de estudos
antigos que mostravam uma curva em J, mas isso pode ser distorção. Muitas
pessoas classificadas como abstêmias já estavam doentes ou reduziram o álcool
por problemas de saúde. Não existe evidência para recomendar o início do
consumo de álcool como proteção ao cérebro”, explicou.
ORIENTAÇÃO PRÁTICA: QUANTO MENOS, MELHOR
Diante das novas evidências, o neurologista defende uma
abordagem mais rigorosa sobre o consumo de álcool, especialmente em pessoas com
histórico familiar ou fatores de risco para doenças neurológicas. “A orientação
é simples: para a saúde cerebral, quanto menos álcool, melhor. Quem tem
histórico de demência, Alzheimer, AVC, depressão ou queixas cognitivas deve
reduzir ao máximo ou até zerar o consumo”, afirmou.
Ele também alerta que o consumo concentrado em finais de semana pode ser ainda mais prejudicial. “Não adianta dizer que é só socialmente. Muitas vezes isso vira exagero no fim de semana, e esse padrão também faz mal ao sistema nervoso”, completou. O especialista reforça que a proteção do cérebro está mais ligada a hábitos gerais de saúde do que ao consumo de substâncias. “O cérebro precisa de sono adequado, atividade física, controle metabólico e menos agressão química ao longo da vida. Não precisa de álcool para funcionar bem”, concluiu. *Com informações do repórter JP Miranda/De Olho na Cidade.