terça-feira, 12 de maio de 2026

ÁLCOOL E CEREBRO: PESQUISA APONTA LIGAÇÃO DIRETA COM MAIOR RISCO DE DEMÊNCIA AO LONGO DA VIDA

Por De Olho na Cidade

Foto: Divulgação

Um estudo internacional publicado na revista científica BMJ Evidence Based Medicine reforça que o consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades, pode estar associado ao aumento do risco de demência ao longo da vida. A pesquisa, conduzida com dados de mais de 559 mil participantes de grandes biobancos do Reino Unido e dos Estados Unidos, concluiu que não há evidência de um nível seguro de ingestão de álcool para o cérebro.

Segundo os pesquisadores da Universidade de Oxford, a análise genética e observacional indica que o risco cresce de forma linear conforme aumenta o consumo, sem qualquer efeito protetor em doses baixas. Para o neurologista Silvério Calaca, os achados reforçam o impacto direto do álcool no sistema nervoso. Ele explica que a substância atua de forma múltipla no cérebro. “O álcool pode agir por várias formas no sistema nervoso. Ele tem efeito neurotóxico direto, causa inflamação, estresse oxidativo, altera neurotransmissores, piora a qualidade do sono e ainda afeta pequenos vasos cerebrais, reduzindo o fluxo sanguíneo”, afirmou.

Segundo o especialista, esses efeitos acumulados ao longo do tempo podem levar a alterações estruturais importantes no cérebro. “Com o tempo isso pode levar à perda de volume cerebral, alteração da substância branca e pior funcionamento das redes neurais ligadas à memória, atenção e funções executivas”, destacou.

MITO DO CONSUMO MODERADO

O estudo também contesta a ideia, difundida por anos, de que o consumo moderado de álcool poderia ser protetor contra demência. De acordo com os pesquisadores, essa percepção pode ter surgido de um fenômeno estatístico conhecido como causalidade reversa. Isso ocorre porque pessoas que já estão em fase inicial de declínio cognitivo tendem a reduzir o consumo de álcool, o que pode distorcer os resultados de pesquisas observacionais.

Dr. Silvério reforça essa leitura e alerta que o chamado “beber social” também não está isento de riscos. “Essa ideia veio de estudos antigos que mostravam uma curva em J, mas isso pode ser distorção. Muitas pessoas classificadas como abstêmias já estavam doentes ou reduziram o álcool por problemas de saúde. Não existe evidência para recomendar o início do consumo de álcool como proteção ao cérebro”, explicou.

ORIENTAÇÃO PRÁTICA: QUANTO MENOS, MELHOR

Diante das novas evidências, o neurologista defende uma abordagem mais rigorosa sobre o consumo de álcool, especialmente em pessoas com histórico familiar ou fatores de risco para doenças neurológicas. “A orientação é simples: para a saúde cerebral, quanto menos álcool, melhor. Quem tem histórico de demência, Alzheimer, AVC, depressão ou queixas cognitivas deve reduzir ao máximo ou até zerar o consumo”, afirmou.

Ele também alerta que o consumo concentrado em finais de semana pode ser ainda mais prejudicial. “Não adianta dizer que é só socialmente. Muitas vezes isso vira exagero no fim de semana, e esse padrão também faz mal ao sistema nervoso”, completou. O especialista reforça que a proteção do cérebro está mais ligada a hábitos gerais de saúde do que ao consumo de substâncias. “O cérebro precisa de sono adequado, atividade física, controle metabólico e menos agressão química ao longo da vida. Não precisa de álcool para funcionar bem”, concluiu. *Com informações do repórter JP Miranda/De Olho na Cidade.