Por Conectado News
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Embora
ainda estejamos distantes do Dia Internacional Contra a Corrupção, celebrado em
9 de dezembro de cada ano, o noticiário dos últimos tempos no Brasil, assim
como certas rodinhas de conversas neste país tão polarizado politicamente tem
chamado a minha atenção. O debate sobre este tema no Brasil costuma ser
atravessado por uma comparação recorrente: a ideia de que durante o regime
militar “não havia corrupção”.
Essa
afirmação, salvo melhor juízo, não se sustenta quando analisada à luz de dados
históricos, documentos oficiais e/ou do próprio funcionamento das instituições
em diferentes períodos. Durante a Ditadura Militar no Brasil, segundo muitas
informações colhidas, o país viveu sob um regime de exceção marcado pela
concentração de poder, limitação de direitos e ausência de transparência.
A censura à imprensa foi institucionalizada, especialmente após o Ato Institucional nº 5, e esta ficou impedida de divulgar, entre outros assuntos, denúncias e investigações. Órgãos de controle não possuíam autonomia plena, ou nenhuma, e o Ministério Público não tinha o protagonismo que passou a ter após a redemocratização.
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Ainda
assim, investigações posteriores e estudos acadêmicos revelam indícios
consistentes de irregularidades, grandes obras públicas do período são
frequentemente citadas como exemplos de falta de controle e possível
superfaturamento. A construção da Ponte Rio-Niterói, como exemplo, iniciada em
janeiro de 1969 e inaugurada em 4 de março de 1974, embora seja um marco da
engenharia brasileira, com 13,29 km de extensão (9 km sobre o mar), teve seu
custo final multiplicado em relação ao orçamento inicial, conforme apontaram
auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU).
Outro
exemplo da época, a Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, situada na
fronteira entre Brasil e Paraguai no Rio Paraná, uma das maiores geradoras de
energia limpa e renovável do mundo construída entre 1974 e 1984 -, ainda que seja
uma das maiores obras da história do país, também foi alvo de questionamentos
técnicos sobre contratos e financiamento. Para não citar outros exemplos.
Em
período mais recente o relatório final da Comissão Nacional da Verdade,
publicado em 2014, reconhece a existência de práticas de corrupção e
favorecimento empresarial durante o regime, ainda que esse não fosse o foco
central de suas investigações. Esses dados indicam que a ausência de escândalos
à época não significava ausência de corrupção, mas sim ausência de mecanismos para
identificá-la e divulgá-la.
Com
a devida licença do leitor, cabe destacar que foi nesse período da Ditadura
Militar que a corrupção era usada como símbolo da impunidade, além do deboche
com o bem público. Em outras palavras, é daqueles tempos um conhecido político
brasileiro o qual era rotulado como aquele que “Rouba, mas faz”.
Com
a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988 a Constituição
Cidadã o Brasil passou a contar com instituições mais robustas de controle e
fiscalização. A autonomia do Ministério Público, o fortalecimento dos tribunais
de contas e a liberdade de imprensa criaram condições para que esquemas de
corrupção fossem investigados e expostos.
Um
exemplo emblemático e recente foi a Operação Lava Jato, que, a partir de 2014,
resultou em mais de uma centena de condenações e na recuperação de bilhões de
reais desviados, segundo dados do Ministério Público Federal. Mais recente
ainda, o governo de Jair Messias Bolsonaro (2019–2022) também foi marcado por
debates sobre transparência e combate à corrupção.
Durante
o governo Bolsonaro, apesar do discurso inicial de combate à corrupção,
relatórios da Transparência Internacional mostram que o Brasil caiu no Índice
de Percepção da Corrupção, passando da 96ª posição em 2019 para a 104ª em 2022.
Além disso, episódios como as investigações sobre “rachadinhas” envolvendo
familiares do presidente e suspeitas na compra de vacinas durante a pandemia
foram apurados por órgãos como a Polícia Federal e pela CPI da Pandemia no
Senado, entre outros exemplos.
No
cenário atual, a atuação de instituições como a Controladoria-Geral da União
demonstra a continuidade dos mecanismos de fiscalização e, como exemplo, entre
2020 e 2024, milhares de processos administrativos foram instaurados contra
servidores por irregularidades, incluindo desvios de recursos públicos. O
Portal da Transparência, por sua vez, permite o acompanhamento detalhado dos
gastos governamentais, ampliando o controle social.
Diante
desse panorama, a conclusão parece clara: não há evidência histórica que
sustente a ideia de que não houve corrupção durante a ditadura, mas sim,
existia um ambiente institucional fechado, que dificultava ou mesmo impedia a
investigação e a divulgação de irregularidades. Em contraste, a democracia
brasileira, apesar de suas imperfeições, oferece instrumentos concretos para
identificar, expor e punir desvios de verbas públicas.
Mais do que um aumento da corrupção, o que se observa ao longo do tempo é o aumento da capacidade de enxergá-la. E isso, embora possa parecer um problema, deve ser visto como um dos principais sinais de funcionamento de uma sociedade que busca ainda que com dificuldades mais transparência, responsabilidade e, sobretudo, justiça. FSA-BA, 18/03/2026/Carlos Alberto professor, radialista e mestre de cerimônias: Fonte: Conectado News.