Por Atarde
Uma
proteína estudada há quase três décadas dentro da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ) saiu dos laboratórios para o centro de um debate nacional:
ela pode, de fato, ajudar pessoas com lesão medular grave a recuperar
movimentos? Batizada de polilaminina, a substância é derivada da laminina
proteína produzida naturalmente pelo corpo humano e virou símbolo de esperança
para pacientes com paraplegia e tetraplegia. O entusiasmo, no entanto, convive
com a cautela: o medicamento ainda está em fase inicial de testes clínicos e
não tem autorização para comercialização.
AUTORIZAÇÃO INÉDITA,
MAI AINDA NO COMEÇO
No
início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou
o início da fase 1 dos estudos clínicos. Essa etapa é a primeira de três
exigidas para que um medicamento possa ser aprovado no país e tem como foco
principal avaliar segurança. Serão cinco voluntários, todos com lesão medular
completa na região torácica, entre as vértebras T2 e T10, com cirurgia indicada
e aplicação prevista em até 72 horas após o trauma. Pacientes com lesões antigas
não participam dessa fase. Se os resultados forem positivos, o estudo avança
para as fases 2 e 3, que analisam eficácia e ampliam o número de participantes.
Só após esse percurso a substância poderá ser submetida à aprovação definitiva.
Segundo Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento da
farmacêutica Cristália parceira da UFRJ, a expectativa é concluir cada etapa em
cerca de um ano. Se tudo ocorrer dentro do previsto, o pedido de registro pode
ser protocolado em 2028.
CASOS QUE REACENDERAM
A ESPERANÇA
Mesmo
ainda em caráter experimental, a polilaminina ganhou projeção pública após
relatos de recuperação. Um dos casos mais comentados é o de Bruno Sampaio, que
havia ficado tetraplégico após um acidente em 2018 e, após o tratamento, voltou
a andar. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele aparece treinando
musculação. Outro episódio recente envolveu a nutricionista Flávia Bueno, de 35
anos, que sofreu um acidente ao mergulhar no mar e ficou tetraplégica. Após
receber a aplicação em janeiro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, ela
voltou a movimentar o braço direito, segundo familiares. Desde que a existência
da substância se tornou pública, pacientes passaram a recorrer à Justiça para
obter acesso ao tratamento. Até agora, a Cristália recebeu 37 solicitações
judiciais e realizou 22 aplicações.
O IMPASSE ÉTICO DAS
LIMINARES
Para
a pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera os estudos na UFRJ, a utilização
fora de protocolo científico levanta dilemas. Do ponto de vista técnico, ela
considera inadequado aplicar um tratamento experimental sem que todos os dados
estejam sendo coletados formalmente. Existe ainda o risco de efeitos adversos
raros que podem não ser identificados. Ao mesmo tempo, a cientista reconhece o
drama humano envolvido. Diante de pacientes sem perspectiva terapêutica, a
decisão acaba sendo judicial não científica. A médica fisiatra Ana Rita Donati,
que atua na AACD e não participou das pesquisas, também defende prudência. Ela
lembra que alguma melhora neurológica pode ocorrer naturalmente em determinados
casos, mesmo sem novos medicamentos, o que exige análises cuidadosas antes de
atribuir resultados exclusivamente à polilaminina.
COMO A POLILAMININA
ATUA NA MEDULA
A
substância é produzida a partir da laminina, proteína encontrada em abundância
na placenta;
A
Cristália mantém parcerias com hospitais do interior de São Paulo para que
gestantes possam doar o material após o parto, que normalmente seria
descartado. A saúde das doadoras é acompanhada para garantir segurança no
processo;
Depois
de extraída e purificada, a laminina é preparada no centro cirúrgico, no
momento da aplicação;
Dois
frascos são enviados: um com a proteína e outro com o diluente. Ao serem
misturados, formam uma rede molecular processo chamado de polimerização que
cria uma estrutura de suporte na região lesionada;
A
ideia é que essa “rede” funcione como um andaime biológico, favorecendo o
crescimento dos axônios, estruturas dos neurônios rompidas na lesão medular.
Sem
esses prolongamentos, a comunicação entre cérebro e músculos é interrompida;
A aplicação é feita uma única vez, diretamente na medula espinhal, durante a cirurgia.
DESCOBERTA POR ACASO
A
história da molécula começou de forma inesperada. Um pesquisador da UFRJ havia
adquirido laminina para outro experimento, mas não utilizou o material. Tatiana
Sampaio decidiu testá-lo sem imaginar que ali poderia estar um caminho
terapêutico. A equipe passou então a estudar o composto em células isoladas e
modelos animais de trauma medular. Segundo a pesquisadora, os resultados foram
consistentes: independentemente do tipo de lesão induzida em ratos, os axônios
voltavam a crescer. Esses achados motivaram o primeiro estudo com humanos,
realizado entre 2018 e 2021, envolvendo oito pacientes com lesão medular
completa tipo A o grau mais severo na escala que vai de A (mais grave) a E
(menos grave).
Metade tinha lesão cervical e metade torácica. Dois pacientes morreram em decorrência do próprio trauma, mas os seis restantes recuperaram algum controle motor. A taxa observada foi de 75% de recuperação de movimentos, número superior aos 15% descritos em dados históricos de casos semelhantes tratados apenas com cirurgia, fisioterapia e medicamentos para dor e inflamação. O estudo foi divulgado como pré-print, ou seja, ainda sem revisão por especialistas independentes. Um dos pacientes apresentou melhora considerada extraordinária pelos autores. Segundo Sampaio, ele permaneceu internado em hospital de excelência e recebeu estímulos intensivos de reabilitação fator que pode ter influenciado no desfecho. A pesquisadora ressalta que a regeneração depende não apenas do crescimento do axônio, mas também de estímulos adequados. Por isso, a fisioterapia é considerada parte essencial do processo.
Dra. Tatiana Coelho de Sampaio
O QUE SE SABE E AINDA FALTA SABEER
A
polilaminina está em fase experimental. Os estudos pré-clínicos, feitos em
laboratório e em animais, indicaram potencial terapêutico, mas não são suficientes
para comprovar eficácia. Agora, com a fase 1 autorizada pela Anvisa e
acompanhada pelo Ministério da Saúde, o foco é confirmar segurança em humanos
dentro do rigor regulatório exigido. A expectativa é grande. Mas, como reforçam
os próprios pesquisadores, ainda será preciso tempo e um número maior de
pacientes avaliados para responder com precisão se a molécula brasileira
poderá, de fato, se tornar um tratamento acessível a todos que sofrem lesão
medular. Fonte: Atarde.