Por Nathional Grafphic
Tereza de Benguela é um nome que aos poucos vem se tornando
mais conhecido na historiografia brasileira, principalmente graças à atuação
dos movimentos negros e pelo regaste de memória dessas personalidades feito por
datas importantes como o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, e o
Dia Nacional de Tereza de Benguela, ambos celebrados anualmente em 25 de julho.
Segundo um artigo do Centro de Cultura, Linguagens e
Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, não se
sabe oficialmente onde Tereza de Benguela nasceu se em algum país da África
ou até mesmo no Brasil. Mas o que já se conhece é que ela foi uma mulher
colocada em condição de escravidão e viveu no século 18 em uma região que hoje
estaria dentro do estado do Mato Grosso, perto do Pantanal brasileiro.
Ainda de acordo com o documento, Tereza foi casada com um
homem conhecido como José Piolho, que também viveu em condição de escravidão, e
chefiava o Quilombo de Quariterê (ou “Quilombo Grande”). Quando ele foi
assassinado por soldados do Estado brasileiro, Tereza assumiu o posto de líder
da comunidade quilombola, que tinha cerca de 100 pessoas de origem indígena e
negra, e conseguiu resistir à invasão e à escravidão por 20 anos. (Você pode se interessar também: Dia da
Consciência Negra a história de resistência por trás do candomblé e da capoeira
contada nas ruas de Salvador).
A TRAJETÓRIA DA "RAINHA TEREZA" VIROU SIMÔNIMO DE RESISTÊNCIA
Na liderança do Quariterê entre 1750 e 1770, Benguela
coordenou sua defesa e uma estrutura social que permitia aos integrantes ali
viverem do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana, e da venda dos
excedentes da produção, bem como de tecidos feitos com o algodão de outra parte
da colheita, segue explicando o artigo da universidade baiana.
Historicamente, se tornou notável o fato de Benguela ter
montado uma administração dentro do quilombo que contava com um espaço
destinado ao conselho, o qual funcionava parecido a um parlamento, destaca a
fonte. "Tereza comandou a estrutura política, econômica e administrativa
do quilombo, mantendo um sistema de defesa com armas trocadas com os brancos ou
roubadas das vilas próximas. Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade
negra que lá se refugiava eram transformados em instrumentos de trabalho, visto
que dominavam o uso da forja", completa o texto do Centro de Cultura, Linguagens
e Tecnologias Aplicadas. (Saiba mais: Consciência Negra 5 livros para entender
a questão racial no Brasil).
COMO TEREZA BANGALE MORREU?
Tereza de Benguela foi capturada em 1770, quando o quilombo
foi invadido e destruído pelas forças de bandeirantes contratadas por Luiz
Pinto de Souza Coutinho, governador da capitania do Mato Grosso. Parte da população (79 negros e 30 indígenas) foi
assassinada e outra, aprisionada, detalha um documento do site da Superintendência
de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade do governo federal do Brasil. Já
segundo o artigo da Universidade da Bahia, não existe registro oficial de como
Tereza de Benguela morreu. Suspeita-se que ela possa ter se suicidado depois de
ser capturada por bandeirantes a mando da capitania do Mato Grosso ou assassinada
ainda no quilombo.
Um terceiro artigo, por sua vez, defende que Benguela teria sido capturada e levada para a prisão, onde teria definhado até morrer: "Presa na cadeia de Vila Bela, sua desaventura fica ainda pior ao ser tomada pela melancolia e tristeza profundas, em tormento, segundo alguns, negando a alimentar-se, recusando-se retornar à escravidão", diz o texto da plataforma online de história "Impressões Rebeldes", da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Depois de morta, a cabeça de Tereza teria sido cortada e colocada em meio a praça do antigo quilombo para servir de exemplo a todos que a vissem, finaliza o documento. Ou seja, de todas as formas, é praticamente certo que em seu fim de vida ela enfrentou a violência. (Vale a pena ler também: Dia da Consciência Negra: o que é e por que se celebra em 20 de novembro)
Reconhecido pela ONU (Organização das Nações Unidas) em
1992, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha,
celebrado em 25 de julho, tem o objetivo de fortalecer e reconhecer a união
entre mulheres negras, latinas e caribenhas no combate ao racismo e machismo
enfrentado nas Américas, como explica um artigo da Fundação Palmares – entidade
oficial do governo federal brasileiro para a promoção da da afro-brasilidade. No
Brasil, em especial, soma-se a essa data a criação do Dia Nacional de Tereza de
Benguela e da Mulher Negra, em 2014, cujo propósito é "dar visibilidade ao
papel da mulher negra na história brasileira", explica a Fundação
Palmares. "Este dia deve ser fortalecido com ações em reconhecimento ao
protagonismo dessas mulheres na manutenção e preservação das tradições
culturais afro-brasileiras", defende o texto.
Benguela também foi homenageada em 1994 durante um desfile de carnaval da escola de samba Unidos do Viradouro, no Rio de Janeiro. A tradicional agremiação carioca escolheu a líder quilombola como tema de seu samba enredo. Ele tinha o nome de "Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal". Já em 2020 foi a vez da escola de samba Barroca Zona Sul, de São Paulo, homenagear a líder negra com um desfile sob o samba-enredo: “Benguela… a Barroca Clama a Ti, Tereza!”. Fonte: National Geographiphic.