Por Correio
Mais de 10 mil denúncias de violência contra mulheres e crianças na Bahia acendem alerta para identificação de sinais em hospitais e clínicas Crédito: PexelsEntre as crianças, falta de
contato visual, comportamento introspectivo, postura de medo. Lesões ou
desconfortos em algumas regiões do corpo. Entre as mulheres, dor pélvica
crônica, infecções de repetição, crises de ansiedade, insônia, retração e
também falta de contato visual. Nem sempre a violência física e psicológica
contra crianças e mulheres deixa sinais visíveis, mas esses são alguns
indicativos que podem ser percebidos por profissionais de saúde e durante
consultas médicas e que indicam que algo pode estar errado.
Entre janeiro e abril de 2026, a
Bahia recebeu 3.291 denúncias de violência contra a mulher por meio do Ligue
180, canal do governo federal. Três a cada quatro denúncias (2.466) foram de
situações que ocorrem na casa da vítima ou da vítima e do agressor. O número
nesse período deste ano já representa 40% das ocorrências do ano passado,
quando foram contabilizadas 8549 denúncias. Já o Disque 100, do Ministério dos
Direitos Humanos e Cidadania, registrou 6.574 denúncias de violência contra
criança ou adolescente na Bahia, de janeiro até o último dia 18. Além disso, no
mesmo período, foram quase 40 mil ocorrências de violações de direitos de
crianças e adolescentes no estado. Neste mês, inclusive, é instituída a
campanha Maio Laranja, que chama atenção para o combate ao abuso e à exploração
sexual de crianças e adolescentes.
Nestes contextos, a atuação dos
profissionais de saúde pode ser determinante para o desfecho, uma vez que
existe obrigação legal de comunicar a suspeita de violência às autoridades, no
caso de crianças e adolescentes. “A gente não precisa ter certeza. Se tem
suspeita, somos obrigados legalmente a denunciar”, enfatiza a médica pediatra
Raquel Simbalista, professora da Afya Salvador, referindo-se ao Conselho
Tutelar da região em que o médico estiver atendendo. “Tudo é feito em sigilo e
o nome de ninguém é divulgado. A gente também pode observar se aquela família
está necessitando de suporte psicológico, para encaminhar a um psicólogo”,
explica.
CRIANÇAS
De acordo com ela, o
comportamento de crianças e adolescentes em situação de violência depende da
idade e do contexto familiar da vítima. Outro aspecto que pode influenciar é o
acompanhante dessa criança ou adolescente - se é alguém que tem intenção de
pedir ajuda ou não, ou mesmo se essa pessoa é a autora da violência. “A gente
orienta sempre aos alunos, tanto no terceiro quanto quarto semestre, a observar
comportamento. São coisas sutis, como a falta de cuidado visual, porque mesmo
quando a criança está olhando feio para a gente, ela faz contato.
Comportamentos muito introspectivos, timidez excessiva, aquela postura de medo
são alguns comportamentos mais universais”, exemplifica.
Durante a anamnese, é possível
também perceber discrepâncias nos relatos. Se uma criança tem lesões em locais
estranhos, como virilha, nádegas e pescoço, pode ser algo fora do padrão.
Existem lesões compatíveis com a faixa etária e outras que destoam. “É muito
comum um menino de seis, sete anos, aparecer cheio de hematomas na canela,
porque joga futebol e não tem lesões em outro lugar, por exemplo. Outra coisa é
quando a pessoa quer esconder a lesão”, afirma a pediatra. Segundo a psicóloga Andrea Beltran, o fato de
que, em grande parte dos casos, o agressor faz parte do círculo de convivência
da criança dificulta mais a identificação e a denúncia. “A criança pode sentir
medo, culpa, confusão emocional e até receio de desestruturar a família caso
fale sobre o assunto”, diz.
Assim, nem sempre haverá um
relato direto, especialmente entre crianças menores que não têm repertório
emocional ou linguagem suficiente para contar o que viveram de forma clara.
“Por isso, a escuta acolhedora e a observação constante dos adultos são
fundamentais. Quando a criança percebe segurança e ausência de julgamento, ela
tende a se sentir mais protegida para falar”, acrescenta a psicóloga. Mesmo
entre os pacientes mais jovens, também é possível identificar Infecções
Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Enquanto a violência física pode gerar
hemorragias, fraturas e até quadros cirúrgicos, a violência sexual pode ser
percebida ao examinar a criança e encontrar lesões de doenças como sífilis e
condiloma (verruga genital), por exemplo.
Em crianças e adolescentes, as situações de violência vão
demandar sensibilidade, responsabilidade e preparo técnico dos profissionais,
como reforça a médica ginecologista Ludmila Andrade, professora de Medicina da
Afya Salvador. Isso porque há muitos sinais não explícitos da violência e que
podem vir acompanhados também de indícios de automutilação e de sexualização
infantil. “Os sinais mais fortes costumam ser emocionais: um retraimento
intenso, ansiedade, mudanças bruscas de comportamento, a hipersexualização,
dificuldade extrema de falar sobre o próprio corpo e reações que são
desproporcionais ao toque ou mesmo aproximação. Precisamos observar muito a
dinâmica familiar, se a criança demonstra algum tipo de medo com determinada
acompanhante, se evitar falar na presença desse acompanhante", afirma.
MULHERES
Para a ginecologista Ludmila Andrade, a situação mais
frequente no consultório, no caso das mulheres, é perceber a violência
psicológica e emocional, ainda que outras situações - como a violência sexual -
também sejam recorrentes, mesmo em relacionamentos que aparentam ser ‘normais’.
“É muito frequente encontrar mulheres que vivem sob controle excessivo do
parceiro, situações de humilhação constante, manipulação emocional, isolamento
social, excesso de vigilância sobre celular, diminuição de autoestima,
vigilância financeira e que fazem com que essas mulheres vivam em situação de
culpa e medo constante".
O abuso sexual também existe em relacionamentos. Entre as
pacientes, há aquelas que acreditam que são obrigadas a ter relações sexuais
mesmo sem vontade, com o objetivo de evitar conflito. Segundo a médica, isso
traz consequências para a saúde física, a exemplo de muita dor na relação,
perda do desejo, aumento de ansiedade, insônia e sofrimento emocional.
Sintomas recorrentes sem causa orgânica proporcional também podem ser sinais a serem observados. Esse é o caso de dor pélvica intensa, infecções de repetição, tensão muscular, excesso de tensão, alterações menstruais e queixas sexuais. “No caso dos adolescentes, vemos ainda casos relacionados a vulnerabilidade, relacionamentos abusivos precoces e a exposição a situações de violência psicológica pelas redes sociais e por alguns grupos sociais. A violência raramente começa pela agressão física. Os sintomas começam sutis e vão piorando progressivamente, com o passar do tempo", pontua Ludmila. Fonte Correio.