Por Hieros Vasconcelos
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia
Fundada
em 29 de março de 1549 por Tomé de Sousa, Salvador chega aos 477 anos
consolidada como uma das cidades mais antigas das Américas e, ao mesmo tempo,
como um dos centros urbanos que mais têm buscado se reinventar nas últimas décadas.
Primeira capital do Brasil, berço de decisões políticas, econômicas e culturais
que moldaram o país, a cidade carrega em sua formação as marcas profundas da
colonização, da presença africana e de um processo urbano que atravessou
séculos mantendo sua relevância.
Ao
longo de sua história, Salvador nunca foi uma cidade estática. Embora tenha
preservado elementos fundamentais de sua identidade, como o traçado urbano
original, o centro histórico e a força de suas manifestações culturais, a
capital baiana também passou por sucessivas transformações que redesenharam seu
território e sua dinâmica econômica. Essa capacidade de adaptação, segundo o
historiador Cid Teixeira, é uma das principais características da cidade.
“Salvador se transforma ao longo do tempo sem perder sua essência. Cada período
histórico deixou marcas, mas a cidade sempre encontrou formas de se
reorganizar”, observa ao analisar a evolução urbana da capital.
Essa
leitura se confirma no presente. Nos últimos anos, Salvador tem vivenciado um
conjunto expressivo de intervenções urbanas que buscam responder a demandas
históricas relacionadas à mobilidade, infraestrutura e crescimento
populacional. A implantação de novos viadutos em regiões estratégicas, a
requalificação de avenidas importantes e a criação de novas ligações viárias
vêm alterando de forma significativa a circulação na cidade, especialmente em
áreas que tradicionalmente concentravam gargalos de trânsito.
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia
Ao
mesmo tempo, obras de contenção de encostas e de drenagem avançam em bairros
populares, ampliando a segurança de milhares de moradores e enfrentando um dos
problemas mais antigos da capital, que é a ocupação de áreas de risco em função
de sua geografia marcada por morros e vales. Essas intervenções, embora muitas
vezes invisíveis no cotidiano de quem circula pelas áreas centrais, representam
mudanças estruturais importantes para a qualidade de vida da população.
Esse
movimento de transformação urbana dialoga com uma lógica mais ampla, apontada
pelo geógrafo Milton Santos, que compreende as cidades como espaços onde
diferentes tempos convivem simultaneamente. Salvador, nesse sentido, é um
exemplo claro dessa sobreposição. Ao mesmo tempo em que preserva edificações
seculares e um patrimônio histórico reconhecido internacionalmente, a cidade
incorpora novas estruturas, amplia sua malha urbana e busca se adaptar às
exigências contemporâneas.
Além
das intervenções já em andamento, projetos de maior escala começam a desenhar o
futuro da capital. A implantação do VLT do Subúrbio, por exemplo, promete
transformar a mobilidade em uma das regiões mais populosas da cidade, enquanto
a futura ponte Salvador-Itaparica surge como um marco capaz de redefinir a
dinâmica econômica e territorial não apenas da capital, mas de todo o estado.
Essas
iniciativas indicam que Salvador, mesmo com quase cinco séculos de existência,
continua sendo uma cidade em construção. Uma cidade que carrega o peso de sua
história, mas que não se limita a ela. Pelo contrário, utiliza essa base
histórica como ponto de partida para novos ciclos de desenvolvimento.
Ao completar 477 anos, Salvador reafirma uma característica que a acompanha desde sua fundação: a capacidade de permanecer relevante. Se no passado foi centro do poder colonial, hoje se consolida como um polo de cultura, turismo, serviços e inovação, mantendo sua importância no cenário nacional. Não se trata de negar sua idade, mas de compreender que, em Salvador, o tempo não representa estagnação. Representa acúmulo, experiência e, sobretudo, continuidade. É uma cidade antiga na sua origem, na sua arquitetura e na sua memória. Mas é também uma cidade nova na sua dinâmica, nas suas transformações e na sua capacidade permanente de se reinventar diante dos desafios de cada época. Fonte: Tribuna da Bahia.