sábado, 28 de março de 2026

SALVADOR, 477 ANOS: CIDADE HISTÓRICA QUE SE RENOVA E REAFIRMA SUA FORÇA

Por Hieros Vasconcelos

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Fundada em 29 de março de 1549 por Tomé de Sousa, Salvador chega aos 477 anos consolidada como uma das cidades mais antigas das Américas e, ao mesmo tempo, como um dos centros urbanos que mais têm buscado se reinventar nas últimas décadas. Primeira capital do Brasil, berço de decisões políticas, econômicas e culturais que moldaram o país, a cidade carrega em sua formação as marcas profundas da colonização, da presença africana e de um processo urbano que atravessou séculos mantendo sua relevância.

Ao longo de sua história, Salvador nunca foi uma cidade estática. Embora tenha preservado elementos fundamentais de sua identidade, como o traçado urbano original, o centro histórico e a força de suas manifestações culturais, a capital baiana também passou por sucessivas transformações que redesenharam seu território e sua dinâmica econômica. Essa capacidade de adaptação, segundo o historiador Cid Teixeira, é uma das principais características da cidade. “Salvador se transforma ao longo do tempo sem perder sua essência. Cada período histórico deixou marcas, mas a cidade sempre encontrou formas de se reorganizar”, observa ao analisar a evolução urbana da capital.

Essa leitura se confirma no presente. Nos últimos anos, Salvador tem vivenciado um conjunto expressivo de intervenções urbanas que buscam responder a demandas históricas relacionadas à mobilidade, infraestrutura e crescimento populacional. A implantação de novos viadutos em regiões estratégicas, a requalificação de avenidas importantes e a criação de novas ligações viárias vêm alterando de forma significativa a circulação na cidade, especialmente em áreas que tradicionalmente concentravam gargalos de trânsito.

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Ao mesmo tempo, obras de contenção de encostas e de drenagem avançam em bairros populares, ampliando a segurança de milhares de moradores e enfrentando um dos problemas mais antigos da capital, que é a ocupação de áreas de risco em função de sua geografia marcada por morros e vales. Essas intervenções, embora muitas vezes invisíveis no cotidiano de quem circula pelas áreas centrais, representam mudanças estruturais importantes para a qualidade de vida da população.

Esse movimento de transformação urbana dialoga com uma lógica mais ampla, apontada pelo geógrafo Milton Santos, que compreende as cidades como espaços onde diferentes tempos convivem simultaneamente. Salvador, nesse sentido, é um exemplo claro dessa sobreposição. Ao mesmo tempo em que preserva edificações seculares e um patrimônio histórico reconhecido internacionalmente, a cidade incorpora novas estruturas, amplia sua malha urbana e busca se adaptar às exigências contemporâneas.

Além das intervenções já em andamento, projetos de maior escala começam a desenhar o futuro da capital. A implantação do VLT do Subúrbio, por exemplo, promete transformar a mobilidade em uma das regiões mais populosas da cidade, enquanto a futura ponte Salvador-Itaparica surge como um marco capaz de redefinir a dinâmica econômica e territorial não apenas da capital, mas de todo o estado.

Essas iniciativas indicam que Salvador, mesmo com quase cinco séculos de existência, continua sendo uma cidade em construção. Uma cidade que carrega o peso de sua história, mas que não se limita a ela. Pelo contrário, utiliza essa base histórica como ponto de partida para novos ciclos de desenvolvimento.

Ao completar 477 anos, Salvador reafirma uma característica que a acompanha desde sua fundação: a capacidade de permanecer relevante. Se no passado foi centro do poder colonial, hoje se consolida como um polo de cultura, turismo, serviços e inovação, mantendo sua importância no cenário nacional. Não se trata de negar sua idade, mas de compreender que, em Salvador, o tempo não representa estagnação. Representa acúmulo, experiência e, sobretudo, continuidade. É uma cidade antiga na sua origem, na sua arquitetura e na sua memória. Mas é também uma cidade nova na sua dinâmica, nas suas transformações e na sua capacidade permanente de se  reinventar diante dos desafios de cada época. Fonte: Tribuna da Bahia.