Por Correio
Elevador Lacerda liga Cidade Baixa à Cidade Alta Crédito: Lucas Moura/Secom PMS
Quando Salvador foi fundada por Tomé de Sousa como capital da colônia portuguesa, em 1549, uma falha geográfica contribuiu para a separação dos dois planos da cidade. O acidente tectônico natural, conhecido como a Falha de Salvador, definiu a distinção entre Cidade Alta e Cidade Baixa. "Desde o início, a cidade foi pensada para ser uma cidade-fortaleza, o que se chama de acrópole (do grego akropolis). Acro é cabeça, pólis é cidade. Salvador tem uma fortaleza natural, a Falha de Salvador", explica o historiador Ricardo Carvalho, mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Pelourinho por Divulgação
O
desnível de aproximadamente 85 metros entre a parte baixa, às margens da Baía
de Todos-os-Santos, e o planalto acima influenciou diretamente o crescimento da
cidade em dois planos. Com um terreno mais seguro, a parte mais elevada foi
transformada na sede do núcleo do poder. Enquanto isso, a parte baixa foi
destinada ao comércio e ao porto marítimo. "A separação não foi acidente,
não foi estabelecida por decreto, mas estava embutida em uma lógica geográfica
e de uso do espaço, mesmo que a cidade tenha crescido de modo espontâneo e
desigual nos séculos seguintes", continua.
Elevador Lacerda completa 150 anos nesta sexta (08) por Paula Fróes/ CORREIO
Ao longo dos mais de 470 anos, a distinção física acabou se consolidando social e funcionalmente. Além de características territoriais, as divisões geográficas foram transformadas em marcos socioculturais históricos, pois influenciaram os processos de ocupação da capital baiana, a primeira capital do Brasil. "As áreas elevadas eram mais cobiçadas e seguras. Locais onde não se concentrava lixo eram mais privilegiados; não à toa eram os espaços onde ficavam as construções mais imponentes", destaca o historiador Rafael Dantas, mestre pela Ufba e pesquisador na área de cultura material e iconografia.
Destacam-se entre tais construções o Palácio Rio Branco, antiga sede do governo da Bahia, com arquitetura histórica (séculos XVIII-XX); o Palácio do Arcebispado, antiga residência episcopal da época colonial; e o Palácio Tomé de Souza, atual prédio da Prefeitura de Salvador. Já as partes baixas não concentravam tais privilégios. O porto, no entanto, destacava-se pela movimentação financeira, por onde a riqueza da cidade circulava. "A Cidade Baixa dessa região, do que hoje conhecemos como a área da Conceição da Praia até onde fica o Mercado do Ouro, era uma área de grande relevância, que concentrou parte significativa de todos os índices da economia do hemisfério Sul ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII", complementa Dantas.
Comércio (2009) por Arquivo/CORREIO
DIVISÃO SOCIOPOLÍTICO
Desde o período colonial, o desnível natural entre o platô e a área portuária estruturou também uma hierarquia de poder, circulação e ocupação social. "A divisão sociopolítica se manifestava entre esses dois aspectos de uma forma muito clara. Primeiro na arquitetura, nos casarios, na divisão das ruas e, com o passar do tempo, evidentemente, nas intenções de melhoramentos urbanos ao longo das transformações urbanas de Salvador", destaca Dantas. A escravidão teve papel central nessa configuração.
Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Cidade Baixa por Arisson Marinho/CORREIO
A Cidade Baixa era o principal ponto de chegada de africanos escravizados trazidos pelo tráfico atlântico, além de ser espaço de trabalho compulsório em atividades portuárias, comerciais e de serviços. O movimento constante moldava a paisagem humana do local.
Janeiro de 1997, vista aérea de Ponta de Humaitá por Foto: Luiz Hermano/Arquivo Correio
"Escravidão está presente em todo o aspecto desde a criação de Salvador. E, principalmente, na área baixa, todo esse trabalho comercial, marítimo, de navegação, de uma forma ou de outra, estava voltado à mão negra. Não só a questão naval, a arquitetura, a construção da cidade, as ferragens, os carregadores, os carregadores de cadeirinha etc. Quem movimentava tudo isso era a mão negra", diz Dantas.
Lobato (2012) por Arquivo/CORREIO
Mesmo
com investimentos simultâneos em diferentes períodos, especialmente entre os
séculos XVIII e XIX, a experiência cotidiana reforçava as distinções. Mais do
que dois níveis topográficos, Cidade Alta e Cidade Baixa representaram, ao
longo da história, dois polos complementares e desiguais de uma mesma cidade,
estruturados pela lógica do poder, do comércio atlântico e pela profunda marca
da escravidão na formação social de Salvador. Fonte: Correio