Por Gazeta Brasil
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
A cúpula da CPMI do INSS se manifestou na noite desta última quinta-feira (5/2) após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), anular a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O presidente do colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG), classificou a medida como motivo de “profunda preocupação institucional” e disse ter recebido a decisão com “indignação republicana”. Para Viana, a anulação da quebra dos sigilos representa um “episódio que toca diretamente o delicado equilíbrio institucional entre os Poderes da República”. Ele ainda lembrou que o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), havia analisado e rejeitado um recurso para suspender a deliberação da CPMI, que aprovou a quebra dos sigilos no dia 26 de fevereiro. “Não estamos diante de uma simples divergência procedimental”, destacou Viana em nota à imprensa, reforçando a tensão entre o STF e o colegiado parlamentar.
EIS A ÍNTEGRA DA DECLARAÇÃO:
Nota
Oficial do Presidente da CPMI do INSS – Senador Carlos Viana – MG
Recebo
com profunda preocupação institucional e com indignação republicana a decisão
liminar proferida pelo ministro Flávio Dino que suspende os efeitos da quebra
de sigilo aprovada pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga o
escândalo envolvendo o INSS. A decisão ocorre após a própria Presidência do
Congresso Nacional, exercida pelo senador Davi Alcolumbre, ter analisado
formalmente os questionamentos apresentados e concluído que a votação realizada
pela CPMI observou integralmente o Regimento e a Constituição da República. Portanto,
não estamos diante de uma simples divergência procedimental. Estamos diante de
um episódio que toca diretamente o delicado equilíbrio institucional entre os
Poderes da República.
O Parlamento brasileiro tomou uma decisão legítima, dentro de suas prerrogativas constitucionais de investigação, e essa decisão acaba de ser interrompida exatamente no momento em que a apuração começa a alcançar estruturas que precisam ser esclarecidas diante da sociedade. É importante que o país compreenda o que está em jogo. Estamos falando de uma investigação que busca esclarecer um dos episódios mais revoltantes da história recente do Brasil: milhões de aposentados e pensionistas, brasileiros que trabalharam uma vida inteira, homens e mulheres que contribuíram durante décadas acreditando que o Estado estaria ao seu lado no momento em que mais precisassem. E agora descobrem que podem ter sido vítimas de um esquema que desviou recursos justamente daqueles que mais dependem da proteção pública. Estamos falando de pessoas que dependem de um benefício para comprar remédios, pagar contas básicas e manter a dignidade após uma vida inteira de trabalho. Essa não é apenas uma investigação parlamentar. É uma investigação que busca justiça para milhões de brasileiros vulneráveis. E exatamente por isso o Parlamento decidiu agir.
A
Constituição da República é clara ao estabelecer que cabe ao Congresso Nacional
fiscalizar e investigar fatos graves que envolvam recursos públicos e o
funcionamento do Estado. Quando uma Comissão Parlamentar de Inquérito aprova
medidas investigativas, ela não exerce um gesto político. Ela exerce um dever
constitucional. É importante esclarecer outro ponto fundamental. O procedimento
de votação em bloco de requerimentos investigativos não é uma inovação desta
Comissão. É uma prática consolidada do Parlamento brasileiro ao longo de
décadas de funcionamento das Comissões Parlamentares de Inquérito. Diversas
CPIs históricas adotaram exatamente esse mesmo procedimento. A CPI da Pandemia
aprovou dezenas de requerimentos investigativos em votações conjuntas. A CPMI
dos atos de 8 de janeiro também utilizou votações em bloco para autorizar
medidas de investigação. A CPI dos Correios, a CPI da Petrobras e inúmeras
outras comissões utilizaram a mesma dinâmica regimental para garantir
celeridade aos trabalhos.
Isso ocorre por uma razão objetiva. As CPIs possuem prazo determinado. São investigações que precisam reunir provas, ouvir testemunhas, requisitar documentos e apresentar resultados dentro de um período limitado. Se cada requerimento tivesse de ser discutido isoladamente durante longas sessões, muitas CPIs simplesmente não conseguiriam cumprir sua missão constitucional. Por isso o Regimento do Congresso permite a votação simbólica e em globo de requerimentos, desde que acompanhados de fundamentação escrita. E foi exatamente isso que ocorreu. Cada requerimento aprovado contém justificativa jurídica própria. Cada requerimento apresenta elementos que demonstram a necessidade da medida investigativa. E quando os parlamentares aprovam esses requerimentos, aprovam também a fundamentação que os acompanha. Esse é o funcionamento normal das Comissões Parlamentares de Inquérito.
É assim que o Parlamento brasileiro investigou grandes escândalos nacionais ao longo das últimas décadas. Se a tese agora apresentada for levada às últimas consequências, estaremos diante de um precedente institucional extremamente preocupante. Porque significaria afirmar que inúmeras decisões tomadas por CPIs ao longo da história também poderiam ser consideradas inválidas. Isso criaria um cenário de insegurança institucional capaz de comprometer o próprio poder investigativo do Parlamento. E é exatamente por isso que este debate ultrapassa o caso concreto. O que está em discussão não é apenas um procedimento formal. O que está em discussão é a preservação de um instrumento constitucional essencial para a fiscalização do poder público. As Comissões Parlamentares de Inquérito são um direito constitucional das minorias parlamentares. Um instrumento criado pela Constituição para garantir que fatos graves sejam investigados mesmo quando interesses poderosos prefeririam que permanecessem escondidos.
Quantas investigações só avançaram porque existiu uma CPI? Quantos esquemas foram revelados porque o Parlamento decidiu investigar? Enfraquecer esse instrumento significa enfraquecer a própria democracia. E neste caso específico significa enfraquecer a investigação de um escândalo que atingiu justamente cidadãos que confiaram no sistema previdenciário brasileiro. Por isso este momento precisa ser registrado para a história. A história registrará quem se levantou para defender os mais fracos. E também registrará quem preferiu impedir que a verdade fosse investigada. Passou da hora de o Parlamento brasileiro se levantar em defesa das suas prerrogativas constitucionais. Passou da hora de esta Casa afirmar com serenidade, mas também com firmeza, que o equilíbrio entre os Poderes da República não pode ser rompido. Cada Poder tem o seu papel. O Executivo governa. O Judiciário julga. E o Parlamento legisla e fiscaliza. Nenhum Poder pode se colocar acima dos outros. Nenhum Poder pode impedir que o Congresso Nacional cumpra sua missão constitucional de investigar fatos que atingem diretamente o povo brasileiro.
O
que está em jogo aqui não é apenas uma investigação. O que está em jogo é o
respeito às prerrogativas do Parlamento e ao equilíbrio entre os Poderes da
República. O Brasil já enfrentou momentos difíceis na sua história
institucional. E como disse o presidente Juscelino Kubitschek: “O Brasil não
pode parar.”. O Brasil não pode parar justamente quando o Parlamento decide
investigar um escândalo que atinge milhões de brasileiros que trabalharam a
vida inteira. O Brasil está assistindo. E a história também. E o Congresso
Nacional continuará cumprindo o seu dever. Investigar. Fiscalizar. E defender o
povo brasileiro. Fonte: Gazeta Brasil.