Por Correio
Vila operária fundada por Luiz Tarquínio em Salvador Crédito: Reprodução
Muito antes da Consolidação das Leis do Trabalho, da Era Vargas e até mesmo da Abolição da Escravidão completar seus primeiros anos, Salvador já conhecia uma experiência inédita de justiça social e organização urbana. No centro dessa história está Luiz Tarquínio, um dos personagens mais importantes e menos lembrados da formação econômica e social da Bahia. Nascido em Salvador, em 1844, Luiz Tarquínio era filho de Maria Luíza dos Santos, uma mulher negra, ex-escravizada, que conquistou a liberdade e lutou para criar e educar o filho em meio a uma realidade marcada pela pobreza.
Foto: Crédito Reprodução
Desde
cedo, Tarquínio precisou trabalhar para sobreviver. Vendeu bilhetes de loteria,
doces caseiros, artesanato e bonecas de pano feitas pela mãe. Foi carregador e
fez de tudo um pouco até, aos 10 anos de idade, conseguir seu primeiro emprego
formal como ajudante em uma loja de tecidos. Sem acesso a uma formação escolar
além do ensino primário, construiu sua trajetória como autodidata. “Ele aprende
inglês sozinho, cresce dentro das empresas em que trabalha e demonstra uma
habilidade absurda”, destaca o historiador Murilo Mello.
Essa
capacidade o levou à firma suíça Frères Bruderer, importadora de tecidos
ingleses, onde passou a sugerir padronagens diretamente aos fabricantes de
Manchester, adequadas ao gosto brasileiro. O reconhecimento veio em 1877,
quando foi elevado à condição de sócio da empresa.
No
livro História da Bahia, o historiador Luiz Henrique Dias Tavares, define
Tarquínio como “o mais ilustre e destacado pioneiro das tentativas de
industrialização da Bahia nas décadas finais do século XIX e início do século
XX”. Segundo ele, Tarquínio tinha o suficiente para ser “mais um rico
comerciante da Bahia”, mas escolheu outro caminho.
VILA OPERÁRIA
As viagens à Inglaterra, no final do século XIX, foram decisivas. Lá, Tarquínio conheceu experiências industriais que apostavam em melhores condições de vida e trabalho para os operários. “Ele vai viver esse universo europeu em que se acreditava que melhorar as condições de trabalho também era uma forma de justiça social, e teve coragem de trazer isso para o Brasil”, contextualiza o historiador Murilo Mello. Vale lembrar que o país que havia acabado de abolir a escravidão e ainda tratava trabalhadores quase como cativos.
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Em 1891, fundou a Companhia Empório Industrial do Norte, uma fábrica têxtil instalada na região da Boa Viagem, na Cidade Baixa. O grande legado, porém, viria depois, quando Luiz Tarquínio mandou construir uma vila operária com 258 casas, ao lado da fábrica, no bairro da Boa Viagem, que hoje tem uma avenida em sua homenagem. Uma das principais vias de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, também carrega seu nome.
Crédito Reprodução"Consideramos
essa vila como talvez o primeiro condomínio popular da história da Bahia e
possivelmente do Brasil”, afirma Murilo Mello. O projeto previa moradia próxima
ao trabalho, reduzindo o desgaste do operário e melhorando a produtividade.
Luiz Tarquínio Crédito: Reprodução
A
Vila Operária possuía um padrão urbano incomum para a época: ruas arborizadas,
jardins, praças, iluminação elétrica, armazém, biblioteca, escola, creche e
atendimento médico e odontológico. “Ele entendia que, se a pessoa tivesse um
tratamento melhor, familiar melhor, ela iria produzir melhor uma concepção que
demorou muito a chegar ao Brasil”, ressalta Murilo.
Os
trabalhadores pagavam um aluguel correspondente a um quarto do salário e, após
cinco anos, tornavam-se donos das casas. Havia ainda licença-maternidade,
décadas antes de qualquer legislação trabalhista. Um modelo de organização
social que só seria institucionalizado no país meio século depois, com a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) criada pelo decreto de lei número 5.452 de 1º de maio de 1943.
Além
de industrial, Luiz Tarquínio também teve atuação política. Foi prefeito de
Salvador e conselheiro municipal. Em 1890, durante a Tragédia do Taboão um dos
maiores desastres urbanos da história da cidade determinou que a prefeitura
arcasse com os custos dos funerais das vítimas e participou pessoalmente do
cortejo fúnebre, carregando um dos caixões.
A
morte de Luiz Tarquínio, em outubro de 1903, causou comoção em Salvador.
Repartições públicas suspenderam atividades, o comércio fechou as portas e
milhares de pessoas acompanharam o enterro. Na vila operária, a fábrica, a
escola e a creche interromperam o funcionamento.
Mais de um século depois, a trajetória de Luiz Tarquínio permanece como um dos capítulos mais avançados da história urbana, industrial e social de Salvador. Seu legado antecedeu o Estado e revelou que a cidade já ensaiava, muito cedo, caminhos de justiça social. Fonte: Correio.