Por Clóvis Gonçalves
O Congresso dos Deputados da Espanha aprovou, nesta última quinta-feira (15/12), um projeto de lei que cria uma licença médica para
mulheres que sofrem com menstruações incapacitantes, uma medida inédita na
Europa que visa, segundo o governo de esquerda, quebrar um tabu. Aprovado por
190 votos a favor, 154 contra e 5 abstenções, o texto também reforça o acesso
ao aborto em hospitais públicos, um direito ainda cheio de obstáculos neste país
de forte tradição católica. A proposta terá agora que ser votada pelo Senado e,
se for modificada lá, precisará retornar ao Congresso dos Deputados, antes de
virar lei. “Esta é definitivamente uma legislatura de avanços feministas”,
celebrou a ministra da Igualdade, Irene Montero, do partido de esquerda
Podemos, aliado dos socialistas do presidente Pedro Sánchez dentro do governo
de coalizão. “Reconhecemos também a saúde menstrual como parte do direito à
saúde e combatemos o estigma e o silêncio”, acrescentou perante os deputados. Apesar
de Montero ter indicado meses atrás que essa licença, que os médicos podem
conceder a mulheres cujos períodos menstruais são particularmente dolorosos ou
incapacitantes, não teria duração limitada, o projeto de lei não contém nenhuma
especificação sobre sua extensão.
MEDIDA BASTANTE POLÊMICA
Quando o texto for definitivamente aprovado, a Espanha se tornará o primeiro país da Europa, e um dos poucos do mundo, a incorporar essa medida à sua legislação, como já fizeram Japão, Indonésia e Zâmbia. A licença menstrual gera, no entanto, reticências em vários setores, como o sindicato UGT, um dos maiores do país, que manifestou a sua preocupação de que isso leve a desconfianças dos empregadores e representem uma trava à contratação de mulheres. Esta lei “causará efeitos opostos para as mulheres”, podendo gerar “reações de marginalização ou estigmatização”, além de “consequências negativas no mercado de trabalho”, criticou Marta González, deputada do Partido Popular (PP, direita). A licença menstrual é uma das medidas de um projeto de lei muito maior que também pretende fortalecer o acesso ao aborto em hospitais públicos, que realizam menos de 15% dessas intervenções na Espanha devido à maciça objeção de consciência dos médicos.
Atualmente,
as mulheres em certas áreas do país têm que percorrer centenas de quilômetros
para interromper uma gestação, devido à falta de serviços públicos e clínicas
especializadas em suas proximidades. O texto também deve permitir que jovens de
16 e 17 anos abortem sem autorização dos pais, revertendo uma obrigação
estabelecida por um governo conservador anterior em 2015. Descriminalizada na
Espanha em 1985 e legalizada em 2010, a interrupção voluntária da gravidez
continua repleta de empecilhos em meio a uma tradição católica profundamente
enraizada. O projeto de lei prevê ainda o reforço da educação sexual nas
escolas, bem como a distribuição gratuita de meios contraceptivos e produtos de
higiene menstrual nos colégios secundários. A Espanha é um país considerado
referência no campo dos direitos das mulheres na Europa, especialmente desde a
adoção, em 2004, de uma lei sobre violência de gênero. Reivindicando-se
feminista, o governo Sánchez tem mais mulheres do que homens. (Correio
Braziliense).