Por Clóvis Gonçalves
Depois da festa de Natal, mulher que não teve o nome divulgado, de 41 anos, que passou 17 anos
em cárcere privado com os dois filhos, tendo como “carcereiro” seu então
companheiro, agora pode sonhar e fazer planos para 2023. Na lista de desejos,
há um que, à primeira vista, seria simples, mas que lhe foi negado a vida
inteira, principalmente após se unir ao baiano de Itapetinga Luiz Antônio
Santos Silva: tomar banho de mar com os filhos. Eu nunca fui à praia. Nem eu,
nem meus filhos. Quando eu era adolescente, eu não saía da comunidade (na Zona
Oeste). Minha família não deixava. Só saí para pagode, porque era pertinho de
casa e uma prima ia comigo. Agora eu gostaria muito de conhecer o mar com meus
filhos. Só vi o mar pela TV — conta a vítima. Luiz Antônio manteve família em cárcere
privado por 17 anos. Para sair com os filhos, uma moça de 22 anos e um rapaz de
20, mas com mentalidade e aparência de crianças, não é uma tarefa fácil. Pelas
deficiências que têm, há a necessidade da ajuda de adultos para evitar que se
machuquem. O tempo de encarceramento fez com que eles, por instinto, disparem a
correr, principalmente o caçula que, há pouco tempo, comia a comida no chão e bebia
detergente da pia. Impedidos de viver: Jovens mantidos em cárcere privado pelo
pai em Guaratiba nunca foram à escola, relata testemunhas.
No dia 18 de novembro, quando completou 41 anos, a família
de da mulher encarcerada lhe fez uma surpresa. Além de comemorarem o reencontro e a casa nova
dela, que tem churrasqueira e uma piscina de plástico no pequeno quintal,
colocaram para tocar a música dela preferida. Colocaram a música do É o Tchan
para eu dançar. Fiquei tão feliz! Não tinha ideia se ainda sabia dançar. Agora
falta conhecer o mar, diz ela, sorrindo. O outro desejo da lista para o ano que
vem é conseguir uma escola para crianças com necessidades para os filhos
estudarem. Como eles têm mais de 20 anos, ficou difícil encontrar um centro
educacional que os aceite com suas dificuldades, mas ela não perdeu as
esperanças. É o meu sonho vê-los
estudar. Eu também quero voltar. Quero terminar o meu 2º grau e fazer
vestibular para enfermagem, para saber cuidar melhor dos meus filhos. Também
quero aprender a mexer no computador. Eu não perdi as esperanças ainda, afirma.
Após resgate: ‘Hoje meus filhos estão dormindo na cama, que eles não tinham’,
diz mãe vítima de cárcere privado por 17 anos Aliás, quem a vê sorrindo, não
imagina que foi refém do ex-companheiro. As assistentes sociais e a psicóloga da
Secretaria Municipal de Assistência Social, que continuam atendendo a família,
falam que ela é muito “resiliente”. Foi um desafio e um grande aprendizado para
nós. Ela é muito resiliente. Hoje é com grande alegria poder testemunhar essa
família superando tudo que passou avalia a psicóloga Jamille Barros, do núcleo
que atende a mulher e os filhos, fica localizado na Zona Oeste.
O ex-companheiro dela, Luiz Antônio Santos Silva, manteve a família trancada por por 17 anos numa casa inacabada, de tijolos à mostra e piso de chão batido, em Guaratiba, na Zona Oeste. Em agosto deste ano, policiais militares, após uma denúncia anônima, flagraram a situação da mãe e dos filhos, que estavam amarrados dentro do imóvel. Completamente desnutridos, muito abaixo do peso ideal, cerca de 20 quilos cada um, eles ganharam a liberdade e descobriram um mundo novo do lado de fora. Ao ser preso, Luiz Antônio Santos Silva afirmou aos PMs que os filhos tinham deficiência e que os manteve trancados para protegê-los. Antonio se encontra preso até os dias de hoje aguardando o julgamento. Ele tem que ficar preso como a gente ficou nesses anos todos comenta ela. Ela relembra que, na época que eram reféns, ninguém dormia à noite, porque ele amarrava as crianças na cama e, como os nós eram apertados, as mãos inchavam. Quando ela afrouxava os nós, ele batia nela e nos jovens, que apanhavam desde crianças. As surras eram de fio de cobre, pedaços de pau e socos. Segundo ela, embora se recusasse a ter relações sexuais com ele, Santos Silva a obrigava, o que caracteriza estupro. Apesar das surras, ela conta que tentou fugir do cativeiro várias vezes. Ele a ameaçava dizendo que iria matá-la, caso o abandonasse. Só conseguiu fugir, conta ela, porque escreveu um bilhete pedindo por socorro. Ela conseguiu passar, por um buraco feito por ela na parede, o pedaço de papel enrolado, que caiu no quintal de uma vizinha. (Salvador Notícia).