O
menino que deixou de receber um coração novo por falta de um avião da Força
Aérea Brasileira (FAB) morreu na noite da última sexta-feira dia 15 de janeiro, 14 dias depois da
oferta e da recusa de um órgão. Gabriel tinha 12 anos e estava internado em
unidade de terapia intensiva (UTI) de um hospital em Brasília, à espera de um
transplante. Uma
oportunidade real surgiu no primeiro dia do ano, com um coração em boas
condições disponível em Pouso Alegre (MG), a menos de mil quilômetros da
capital federal. A chance acabou desperdiçada por falta de transporte, como O
GLOBO mostrou em reportagem publicada no dia 10.
O
estado de saúde do menino vinha se agravando. A morte ocorreu na noite de
sexta-feira e foi confirmada por familiares e por um profissional de saúde que
atua no sistema de transplantes de coração em Brasília. O sepultamento ocorrerá
neste domingo, numa cidade do interior de Minas Gerais, onde vive a família de
Gabriel. Ontem,
por volta das 16 horas, uma nova doação de coração surgiu no sistema de transplantes,
e desta vez em Brasília não haveria, portanto, necessidade de transporte. Um
adolescente de 16 anos do Distrito Federal teve morte cerebral após ser baleado
na cabeça. A família decidiu doar todos os órgãos. Gabriel era o primeiro da
fila à espera de um coração. O órgão foi destinado ao segundo da lista.
A
família de Gabriel estava em Brasília para o tratamento do problema no coração
do menino. Ele era uma das duas crianças na capital federal inscritas na lista
de transplante a outra é uma bebê de nove meses. Familiares
contam que o garoto tinha um coração com alterações, mesmo problema que vitimou
dois tios, e por isso dependia de um transplante para viver. A doença se
manifestou há menos de seis meses.
Doações
de coração são raras. Para crianças, são mais raras ainda. O órgão tem um tempo
de isquemia de quatro horas, que é o período em que pode ficar sem irrigação
sanguínea nenhuma, até trocar de peito. É o menor tempo dentre os órgãos com
possibilidade de transplante. A
Central Nacional de Transplantes, em 1º de janeiro, disparou e-mails a centrais
de regulação de alguns estados e do Distrito Federal para ofertar o coração
surgido em Pouso Alegre. Na oferta, porém, a central já informava a falta de
transporte até a cidade mineira. A equipe que cuidava de Gabriel nem chegou a
embarcar.
A
FAB confirmou ao GLOBO que recebeu o pedido para o transporte do coração e que
"não pôde atender por questões operacionais". A instituição informou
ainda que o episódio passou a ser investigado. "As circunstâncias
envolvidas no caso estão sendo apuradas", afirmou em nota do Centro de
Comunicação Social da Aeronáutica.
As
condições eram favoráveis ao transplante do coração. A Central Nacional de
Transplantes não informou objeções sobre a qualidade do órgão, mas apenas
referentes a condições logísticas. Pouso Alegre tem um aeroporto; naquele dia,
aviões da FAB não decolaram para transportar autoridades; e a FAB já fez
percursos maiores, um deles superior a 1,5 mil quilômetros, para buscar
corações que foram transplantados em pacientes de Brasília.
Transplantes
no Brasil são quase que inteiramente feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O sistema é considerado eficiente, mas tem falhas principalmente no transporte
interestadual de órgãos. O
Instituto de Cardiologia do DF, responsável por fazer os transplantes de
coração em Brasília, não forneceu informações sobre a morte de Gabriel. O
Ministério da Saúde, em nota enviada à reportagem, disse que o menino
"estava na lista nacional de espera por transplante em caráter prioritário
e com acompanhamento da sua situação de saúde".
"Contudo,
a realização de um transplante, bem como o tempo de espera para cada órgão,
varia de acordo com as características do receptor e do potencial doador que
devem guardar estreita compatibilidade como características genéticas, tipo
sanguíneo, variações antropométricas, entre outros aspectos", cita a nota. A
pasta apontou ainda o "desafio logístico". "O exíguo tempo
dificulta a realização da retirada e do transplante em casos em que o potencial
doador se encontra no interior do país, como ocorrido no dia 1º de janeiro, em
que o possível doador estava na cidade mineira de Itajubá, a 40 minutos de
carro de Pouso Alegre, onde fica a pista de pouso mais próxima."
Em
2014, conforme o ministério, foram feitos mais de 5 mil voos para transporte de
órgãos. Esse transporte é feito principalmente na aviação comercial. Em 2013, o
Ministério da Saúde e a FAB assinaram um acordo de cooperação técnica para
priorizar o transporte de órgãos e tecidos.(O Globo)
