Exército Brasileiro se prepara para ter mulheres combatentes em até cinco anos
Dilma determinou, e Força forma
grupos de trabalho para se adaptar e incluir segmento feminino nas academias e
na tropa convencional. Ainda existe resistência interna.
Raphael Gomide iG Rio de
Janeiro | 17/10/2012 06:00:00
INFORMAÇÃO:
IG ÚLTIMO SEGUNDO
Arquivo pessoal
Clara Luz, aluna do IME, em exercício em West Point, academia militar dos EUA, onde há alunas combatentes.
O Exército Brasileiro se prepara para receber mulheres combatentes. Uma
lei sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em agosto dá à Força prazo de até
cinco anos para se preparar para integrar alunas à EsPCEx (Escola Preparatória
de
Cadetes do Exército), à Aman (Academia Militar das Agulhas Negras, escola de oficiais), em Resende (RJ), e praças profissionais à Escola de Sargentos das Armas (ESA), em Três Corações (MG).
Grupos de trabalho no Exército estão sendo formados para estudar como se dará a entrada das mulheres combatentes na tropa.
Divulgação - Maria Quitéria foi a primeira mulher no Exército.
Com a mudança, as mulheres poderão passar a entrar
efetivamente em combate, portando fuzis, integrando patrulhas e missões reais de
confronto e de
Paz, como parte das sete Armas do Exército.
Poderão rastejar e combater a pé em qualquer
terreno pela Infantaria, embarcar em um carro de combate da Cavalaria no front,
disparar um obus da retaguarda na Artilharia, fazer contato ou guerra
eletrônica com o equipamento das Comunicações, reparar ou destruir pontes na
Engenharia, dar o apoio logístico do Material Bélico ou fazer o planejamento
dos suprimentos, na Intendência.
O Exército já tem mulheres, mas apenas no quadro
complementar, em áreas como Saúde (médicas, dentistas, enfermeiras, técnicas de
enfermagem e psicólogas, por exemplo) e em carreiras técnicas do IME (Instituto
Militar de Engenharia).
Com desempenho acadêmico destacado, a cadete do IME
Clara Luz foi enviada para estágio de um ano em West Point, academia militar
dos Estados Unidos. Ao lado de cadetes mulheres combatentes, ela também ficou
em primeiro lugar lá.
Embora haja mulheres combatentes
em polícias militares pelo País , no Exército o segmento feminino se restringe a
6.700 de seus 200 mil integrantes, representando apenas 3,35% do total.
Trata-se de uma carreira, portanto, esmagadoramente masculina. Como comparação,
o Exército dos Estados Unidos, por exemplo, tem 14% de mulheres, o quádruplo,
proporcionalmente.
o quádruplo, proporcionalmente.
Resistência
interna
Divulgação - As mulheres são apenas 3,4% no
Exército, e atuam em atividades auxiliares, como na Veterinária.
Apesar de
não declarado oficialmente, ainda persistem resistências internas e muitas
incertezas na Força em relação à mudança – determinada por lei.
A
intenção inicial da presidenta Dilma era implantar o plano
imediatamente, mas a ideia deixou o oficialato em polvorosa. O Comando
argumentou que seria necessário algum tempo para adaptação, e conseguiu o prazo
de até cinco anos – os militares argumentam que pode acontecer antes.
O
Exército alega que precisa de tempo para estudar as adaptações necessárias,
tanto no aspecto curricular quanto estrutural, de instalações (alojamentos,
banheiros, etc.). “Os desafios são mais culturais. Na Aeronáutica já há
mulheres, mas também é recente, a exemplo de outros exércitos”, diz o da Seção
de Informações Públicas do Exército, coronel Campos. Ele, entretanto, acredita
que a adaptação não será tão “traumática”, porque já há mulheres na Força.
Segundo ele, grupos de trabalho estão sendo formados para estudar o plano de
disciplinas.
Exército
tem cinco anos para se adaptar ao ingresso feminino às academias.
O Exército também ainda não sabe quantas vagas nem
quando serão criadas para as mulheres. Tampouco se decidiu ainda se
elas vão entrar em todas as sete Armas do Exército ou se haverá período de
transição.
“Não tem trauma, o Exército já aceitou. Precisa se
adequar e cumprir o prazo”, afirmou o coronel Campo, que admite ainda haver
muitas questões indefinidas.
Dois artigos incluídos pelos militares na lei foram
vetados pela presidenta Dilma. Um que impedia a entrada de mulheres casadas,
com união estável ou dependentes, e outro que impedia candidatas com tatuagens
que, por “suas dimensões ou natureza, prejudiquem a camuflagem e comprometam as
operações militares”.
Mulher
nas Forças Armadas brasileiras
Divulgação
do Departamento de Defesa dos EUA
Nos EUA,
as mulheres são 14% da tropa do exército e testam coletes adaptados a elas.
Em outras
Forças Armadas, as mulheres participam ativamente há mais tempo, como nos
Estados Unidos, onde estão cada vez mais em operações desde as guerras do
Afeganistão e do Iraque.
O país já
desenvolveu até coletes balísticos especiais para mulheres (mais curtos e
desenhados para o corpo feminino).
No
Brasil, a primeira participação de uma mulher em combate ocorreu em 1823,
quando Maria Quitéria de Jesus – considerada a primeira mulher a assentar praça
em unidade militar – lutou pela manutenção da independência. Só em 1943, as
mulheres entraram oficialmente no Exército, na 2ª Guerra Mundial, quando a
Força enviou 73 enfermeiras voluntárias para servir em quatro diferentes
hospitais do exército dos EUA. Ao voltar da guerra, a maioria ganhou a patente
de oficial foi condecorada e licenciada do serviço ativo militar.
Em 1992,
49 mulheres integraram a primeira turma da Escola de Administração do Exército.
Quatro anos depois, foi criado o Serviço Militar Feminino Voluntário para
médicas, dentistas, farmacêuticas, veterinárias e enfermeiras de nível superior
– e 290 voluntárias entraram. No ano seguinte, o IME matriculou a primeira
turma de dez alunas, no Quadro de Engenheiros Militar e a Escola de Saúde do
Exército formou a primeira turma de oficiais de seu quadro.
Em 98,
519 mulheres de áreas que variam de jornalismo a advocacia e administração de
empresas entraram no Estágio de Serviço Técnico para profissionais, no Quadro
de Oficial Técnico Temporário.
Primeira
mulher voou sozinha em avião da FAB em 2003
Divulgação - Tenente
Fernanda Göertz foi a primeira a voar solo em avião de instrução da FAB.
Na
Aeronáutica, as mulheres passaram a ser admitidas no quadro de oficiais
intendentes da AFA (Academia da Força Aérea) em 1995. Em 2003, a AFA recebeu as
primeiras alunas do Curso de Formação de Aviadores; em 2002, a Escola de
Especialistas da Aeronáutica teve 56 alunas, do total de 287.
Em 2003,
a cadete-aviadora Gisele Oliveira foi a primeira piloto militar a voar sozinha
em aeronave da FAB; no ano seguinte, a cadete Fernanda Göertz voou solo em
avião de instrução básica. Entre 2002 e 2012, a presença feminina na
Aeronautica cresceu 154%, de 3.249 para 8.284 militares. “Com passar dos anos,
elas têm destacado, inclusive ocupando cargos de liderança e chefia, em áreas
antes tipicamente masculinas”, afirma o site da corporação.
O
ingresso da mulher na Marinha começou em julho de 1980, mas, como no Exército,
sempre nas áreas do Quadro Complementar de Oficiais ou Corpo Auxiliar de
Praças, não como combatentes. Elas atuam em áreas como Medicina, apoio à saúde,
Engenharia, Arquitetura, Pedagogia, Direito, História, Comunicação Social,
Serviço Social, Psicologia, entre outras.
Divulgação - Na Aeronáutica, a sargento Pollyana Aredes atira de metralhadora do helicóptero.





