sexta-feira, 16 de outubro de 2026

ECONOMISTA DEFENDE REFORMAS COMPLEMENTARES PARA AMPLIAR BENEFÍCIOS DO FIM DA ESCALA 6X1

Por De Olho na Cidade 

Foto: Roberto Parizotti (Sapão)

A aprovação pelo Senado Federal da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1 pode estimular o consumo e movimentar setores da economia ligados ao lazer, à cultura, à alimentação e ao comércio local. A avaliação é do economista Gesner Brehmer, que participou de entrevista no programa Jornal do Meio Dia para analisar os possíveis efeitos da medida sobre trabalhadores e empresas. A proposta foi aprovada na quarta-feira (14), com 75 votos favoráveis e um contrário. O texto prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, além da garantia de dois dias de descanso remunerado por semana.

Na avaliação do economista, a ampliação do tempo livre dos trabalhadores pode favorecer atividades econômicas que dependem do consumo das famílias. Ele ponderou, porém, que os resultados dependerão de outros fatores econômicos e de medidas complementares. “Do ponto de vista da economia, a gente tem um impacto positivo no estímulo ao consumo e a outros setores. Com mais horas livres, os trabalhadores podem movimentar setores diretamente ligados ao lazer, como cultura, comércio local e alimentação”. Gesner também destacou que a mudança pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, embora ressalte que os efeitos sobre a saúde e o bem-estar envolvam aspectos que vão além da análise econômica., explicou.

IMPACTOS SERÃO DIFERENTES ENTRE OS SETORES

O economista avalia que os efeitos da redução da jornada não serão iguais para todas as atividades. Empresas que funcionam diariamente, como supermercados, farmácias, hotéis, bares, restaurantes e estabelecimentos comerciais, poderão enfrentar maiores dificuldades para reorganizar as equipes. Segundo ele, para manter o funcionamento durante os dias de descanso dos funcionários, essas empresas poderão precisar contratar mais trabalhadores ou recorrer ao pagamento de horas extras, elevando os custos com pessoal. “Com certeza, o impacto mais visível vai ser setorial. A medida não vai ter um impacto homogêneo. Empresas que funcionam de domingo a domingo vão precisar contratar mais funcionários ou pagar horas extras para cobrir os dias de folga”, afirmou.

Gesner ressaltou que o aumento das despesas poderá pesar principalmente sobre os negócios com menor capacidade financeira para absorver os custos adicionais. Ele alertou que, dependendo das condições de cada empresa, a mudança poderá pressionar os preços e afetar as decisões de contratação. “Com o aumento do custo da folha de pagamento, pode haver uma pressão inflacionária, com repasse aos preços. Também pode ocorrer queda no emprego, caso a empresa não consiga sustentar esses funcionários, além de um estímulo à informalidade”, avaliou.

ECONOMISTA DEFENDE REFORMAS COMPLEMENTARES

Apesar dos riscos apontados, Gesner afirmou que a redução da jornada pode trazer benefícios aos trabalhadores, desde que seja acompanhada de outras mudanças estruturais na economia brasileira. Entre os pontos mencionados pelo economista estão a necessidade de avançar nas reformas tributária, trabalhista e administrativa. Na avaliação dele, a ausência de medidas complementares pode limitar os efeitos positivos esperados com a mudança na jornada. Para explicar o argumento, Gesner comparou a proposta a um processo de reeducação alimentar, que exige diferentes ações para alcançar resultados duradouros. “Eu vejo essa escala 6x1 como uma medida incompleta. É como alguém que faz dieta: não pode só parar de comer; tem que fazer exercício físico e outras coisas. A redução da escala precisa vir acompanhada de outras reformas”. Segundo o economista, o objetivo deve ser conciliar mais tempo de descanso para os trabalhadores com condições econômicas que permitam às empresas manter suas atividades, contratar formalmente e sustentar os custos da operação, afirmou

RISCO DE PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO

Outro ponto levantado por Gesner é a possibilidade de alguns trabalhadores procurarem uma segunda fonte de renda durante os dias de folga. Na avaliação dele, se os salários não forem suficientes para atender às necessidades das famílias, parte dos profissionais poderá buscar trabalhos informais para complementar os ganhos. O economista alertou que esse movimento pode ampliar a precarização das relações de trabalho, especialmente se não houver medidas que favoreçam a manutenção dos empregos com carteira assinada. Por isso, ele defendeu que a discussão sobre a jornada seja acompanhada de políticas que considerem tanto as condições dos trabalhadores quanto a capacidade financeira das empresas. “Eu comemoro a medida, mas ela, por si só, não vai gerar todos os efeitos benéficos que muita gente está especulando. Precisa ser o início de um conjunto de reformas para que a melhoria da qualidade de vida e das condições de trabalho venha acompanhada de maior prosperidade”, concluiu. Fonte: De Olho na Cidade.