Por De Olho na Cidade
Foto: Roberto Parizotti (Sapão)A aprovação pelo Senado Federal da Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1 pode estimular o consumo e
movimentar setores da economia ligados ao lazer, à cultura, à alimentação e ao
comércio local. A avaliação é do economista Gesner Brehmer, que participou de
entrevista no programa Jornal do Meio Dia para analisar os possíveis efeitos da
medida sobre trabalhadores e empresas. A proposta foi aprovada na quarta-feira
(14), com 75 votos favoráveis e um contrário. O texto prevê a redução da
jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, além da garantia
de dois dias de descanso remunerado por semana.
Na avaliação do economista, a ampliação do tempo livre dos trabalhadores pode favorecer atividades econômicas que dependem do consumo das famílias. Ele ponderou, porém, que os resultados dependerão de outros fatores econômicos e de medidas complementares. “Do ponto de vista da economia, a gente tem um impacto positivo no estímulo ao consumo e a outros setores. Com mais horas livres, os trabalhadores podem movimentar setores diretamente ligados ao lazer, como cultura, comércio local e alimentação”. Gesner também destacou que a mudança pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, embora ressalte que os efeitos sobre a saúde e o bem-estar envolvam aspectos que vão além da análise econômica., explicou.
IMPACTOS SERÃO DIFERENTES ENTRE OS SETORES
O economista avalia que os efeitos da redução da jornada não
serão iguais para todas as atividades. Empresas que funcionam diariamente, como
supermercados, farmácias, hotéis, bares, restaurantes e estabelecimentos
comerciais, poderão enfrentar maiores dificuldades para reorganizar as equipes.
Segundo ele, para manter o funcionamento durante os dias de descanso dos
funcionários, essas empresas poderão precisar contratar mais trabalhadores ou
recorrer ao pagamento de horas extras, elevando os custos com pessoal. “Com
certeza, o impacto mais visível vai ser setorial. A medida não vai ter um
impacto homogêneo. Empresas que funcionam de domingo a domingo vão precisar
contratar mais funcionários ou pagar horas extras para cobrir os dias de
folga”, afirmou.
Gesner ressaltou que o aumento das despesas poderá pesar
principalmente sobre os negócios com menor capacidade financeira para absorver
os custos adicionais. Ele alertou que, dependendo das condições de cada
empresa, a mudança poderá pressionar os preços e afetar as decisões de
contratação. “Com o aumento do custo da folha de pagamento, pode haver uma
pressão inflacionária, com repasse aos preços. Também pode ocorrer queda no
emprego, caso a empresa não consiga sustentar esses funcionários, além de um
estímulo à informalidade”, avaliou.
ECONOMISTA DEFENDE REFORMAS COMPLEMENTARES
Apesar dos riscos apontados, Gesner afirmou que a redução da jornada pode trazer benefícios aos trabalhadores, desde que seja acompanhada de outras mudanças estruturais na economia brasileira. Entre os pontos mencionados pelo economista estão a necessidade de avançar nas reformas tributária, trabalhista e administrativa. Na avaliação dele, a ausência de medidas complementares pode limitar os efeitos positivos esperados com a mudança na jornada. Para explicar o argumento, Gesner comparou a proposta a um processo de reeducação alimentar, que exige diferentes ações para alcançar resultados duradouros. “Eu vejo essa escala 6x1 como uma medida incompleta. É como alguém que faz dieta: não pode só parar de comer; tem que fazer exercício físico e outras coisas. A redução da escala precisa vir acompanhada de outras reformas”. Segundo o economista, o objetivo deve ser conciliar mais tempo de descanso para os trabalhadores com condições econômicas que permitam às empresas manter suas atividades, contratar formalmente e sustentar os custos da operação, afirmou
RISCO DE PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO
Outro ponto levantado por Gesner é a possibilidade de alguns
trabalhadores procurarem uma segunda fonte de renda durante os dias de folga.
Na avaliação dele, se os salários não forem suficientes para atender às
necessidades das famílias, parte dos profissionais poderá buscar trabalhos
informais para complementar os ganhos. O economista alertou que esse movimento
pode ampliar a precarização das relações de trabalho, especialmente se não
houver medidas que favoreçam a manutenção dos empregos com carteira assinada. Por
isso, ele defendeu que a discussão sobre a jornada seja acompanhada de
políticas que considerem tanto as condições dos trabalhadores quanto a
capacidade financeira das empresas. “Eu comemoro a medida, mas ela, por si só,
não vai gerar todos os efeitos benéficos que muita gente está especulando.
Precisa ser o início de um conjunto de reformas para que a melhoria da
qualidade de vida e das condições de trabalho venha acompanhada de maior
prosperidade”, concluiu. Fonte: De Olho na Cidade.
