Por Atarde
Foto Divulgação
A conta que desafia a matemática e faz de Mata de São João um município com mais eleitores que habitantes, como denunciado porA TARDE, não tem nada de ingênua ou infantil. Com 100% de biometria, os eleitores cadastrados são 'bem grandinhos' e “optam” pelo domicílio eleitoral atraídos por vantagens inconfessáveis. Quem sugere a existência de um esquema de atração de eleitores de outras localidades é um ex-funcionário da Prefeitura, que ocupou cargo na administração de 2005 a 2020 e viu de perto o “milagre” da multiplicação de eleitores no município.
Sob
anonimato, o ex-comissionado revela que uma “rede de pessoas”, incluindo
vereadores e pré-candidatos, promovia, ou ainda promovem, a transferência dos
títulos para endereços do litoral norte, como Praia do Forte e Imbassaí. Não é
difícil conseguir um comprovante de endereço. Impossível seria colocar todos os
eleitores com título transferido nos endereços informados à Justiça Eleitoral.
FORA DA CURVA
A fonte ouvida por A TARDE acrescenta que cada eleitor “atraído” para o município, em geral, vem acompanhado da família, acrescentando mais títulos ao cadastro eleitoral. O objetivo, claro, seria “insuflar”, nas palavras do ex-servidor, a votação dos candidatos envolvidos.
Eles são organizados, fazem
pesquisas e buscam tirar a diferença de votos desfavorável com essas
transferências Para se ter uma ideia, A TARDE fez um levantamento da proporção
entre eleitores e população em algumas cidades da Bahia, como Alagoinhas,
Camaçari, Dias d´Ávila e Ilhéus, que têm em comum grandes empreendimentos e
atraem mão de obra de outras cidades e estados, bem como são destinos
turísticos consolidados. Em média, o número de eleitores fica entre 65% e 70%
da população, considerando o mesmo ano-base. Em Mata de São João, esse número
ultrapassa os 100%, com 42.622 eleitores para 42.566 habitantes, segundo dados
do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
DOMICÍLIO AFETIVO
Procurada
pela reportagem, a assessoria do TRE informou que “é preciso levar em
consideração o crescimento das chamadas zonas urbanas, municípios vizinhos e os
cidadãos com possibilidades de se deslocarem pelas cidades e trabalhar em
lugares diferentes de onde nasceram ou viveram”.bA nota enviada pelo tribunal
diz ainda que “há também uma prevalência de pessoas que mantêm o domicílio
eleitoral, mas vão viver em outros municípios. Isso costuma ocorrer também
quando se tem grandes cidades próximas”.
A
assessoria do TRE acrescenta que “o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adota o
critério do domicílio eleitoral afetivo, permitindo que pessoas possam ser
eleitoras de municípios distintos de onde residem, desde que demonstrem um
vínculo com o local onde pretendem votar”.
Essa não é a primeira vez que a proporção de eleitores em relação à
população chama a atenção. A Bahia, aliás, ostenta o nada honroso título de
campeã em número de títulos cancelados (677 mil) na correição eleitoral
realizada em 2007. Na ocasião, 36 municípios tinham número de eleitores
correspondente a mais de 80% da população da época, sendo 2 municípios com mais
de 100%. Fonte: A tarde.