sexta-feira, 17 de abril de 2026

DUAS ROSAS: DELAÇÃO DE EX-DIRETORA DO PRESÍDIO DE EUNÁPOLIS DETALHA RELAÇÃO COM ULDURICO JR. E PROCURA APÓS ELEIÇÕES

Por Bahia Notícia

Foto: Reprodução / Redes sociais / Câmara dos Deputados

Por Bahia Notícia A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, fez um acordo de delação premiada para dar detalhes sobre a fuga dos 16 detentos da unidade prisional, ocorrida em dezembro de 2024. O depoimento dela trouxe à tona sua relação com o ex-deputado federal Uldurico Júnior, à época no MDB e atualmente filiado ao PSDB, e as negociações com o líder do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), Ednaldo Pereira Souza, conhecido como “Dada”. O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, começando por esta.

Para formalizar a colaboração premiada, foram realizadas audiências virtuais nos dias 15 de dezembro de 2025 e 22 de janeiro de 2026 com a presença da colaboradora, da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA) e representantes do Ministério Público (MP-BA). A formalização da delação ocorreu no dia 5 de fevereiro deste ano. Para cumprir o acordo, Joneuma foi obrigada a detalhar espontaneamente todos os esquemas criminosos envolvendo Uldurico Júnior e Dada, indicando provas e identificando outros participantes.

O acordo para a delação prevê o cumprimento de uma pena privativa de liberdade total de seis anos, o que representa uma redução de dois terços em relação à pena máxima possível. No intervalo, ela cumpriria apenas um ano em regime fechado, enquanto os cinco anos restantes seriam entre o semiaberto e o aberto, sem uso de tornozeleira eletrônica. O Ministério Público também se comprometeu, caso ela solicite, a incluí-la de forma imediata no Programa Federal de Proteção Especial ao Depoente, garantindo a segurança dela e de sua família.

O INÍCIO DE TUDO

Na delação ao MP-BA, Joneuma Silva Neres contou que conheceu Uldurico Júnior por meio da deputada estadual Claudia Oliveira (PSD). Segundo o depoimento, eles se encontraram pela primeira vez quando ela trabalhava em um cargo administrativo na unidade prisional de Teixeira de Freitas. A data não foi especificada, mas a reportagem apurou que ela é concursada e chegou ao cargo em 2016.  Conforme a delação premiada, Uldurico já frequentava a unidade para realizar reuniões a portas fechadas com os detentos, o que era tratado como algo "normal" pelos colaboradores. O ex-deputado federal seria acompanhado por David Loyola, secretário de Desenvolvimento Econômico de Teixeira de Freitas e irmão do secretário estadual de Relações Institucionais (Serin), Adolpho Loyola, além do vereador do município, Jonatas dos Santos (MDB).

O MP-BA indicou que, em 2024, quando Joneuma foi nomeada diretora em Eunápolis, Uldurico Júnior já possuía forte influência dentro da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (SEAP). Desde a época, a pasta era comandada por indicação do MDB, partido do ex-deputado federal no período. O depoimento não detalhou quando a relação amorosa entre Joneuma e Uldurico teria se iniciado, mas a ex-diretora afirmou que enxergou sua nomeação à Diretoria do Conjunto Penal de Eunápolis como uma “promoção”. As investigações do MP-BA afirmam que Uldurico já planejava ter uma pessoa de sua confiança instalada na unidade penitenciária, visando viabilizar seus interesses e propósitos ilícitos. A oficialização de Joneuma como diretora em Eunápolis ocorreu em posse no dia 14 de março de 2024, sendo a primeira mulher na chefia de um presídio masculino no estado.

VOTOS

Joneuma afirmou que, já no dia seguinte após tomar posse do cargo, Uldurico Júnior compareceu à unidade com uma comitiva e realizou reuniões a portas fechadas com líderes da facção PCE. Logo nessas primeiras semanas, Joneuma, atendendo a pedidos de Uldurico Jr., passou a autorizar a entrada de freezers, aparelhos de som e alimentação diferenciada para os detentos. Inicialmente, conforme as investigações, as conversas entre Uldurico e Dada seriam uma troca para garantir eleitores “cativos” a Uldurico, por meio de um grupo composto por presos provisórios com direito a voto, seus amigos e familiares. Cada voto captado era recompensado com R$ 100,00, em dinheiro vivo, e era pago por intermediários da facção.

ACORDO, FUGA E ELEIÇÕES

Conforme a delação, o cenário mudou após Uldurico Júnior perder a disputa pela prefeitura de Teixeira de Freitas em outubro de 2024. Depois da derrota, o ex-deputado federal teria pressionado Joneuma para obter recursos com a facção PCE para pagar dívidas de campanha, o que culminou no acordo de R$ 2 milhões para facilitar a fuga dos presos. A fuga foi concretizada e ocorreu na noite de 12 de dezembro de 2024, envolvendo uma ação coordenada dentro e fora do Conjunto Penal de Eunápolis. Segundo as investigações, 16 detentos que estavam na cela 44 usaram uma furadeira para abrir um buraco no teto e acessar outra área da unidade. Joneuma acabou sendo afastada do cargo em 17 de dezembro de 2024, por decisão da 1ª Vara de Eunápolis, exonerada no dia 7 de janeiro de 2025 e presa duas semanas depois.

NERVOSISMO

As investigações também tiveram acesso a diálogos entre Joneuma e Uldurico por meio de um aplicativo de mensagens. Com início após a concretização da fuga, as conversas demonstram como a então diretora do presídio de Eunápolis estava nervosa com a situação, com receio de afastamento e prisão. O “estopim” ocorreu após a concretização de sua retirada do comando da penitenciária. Em mensagens encaminhadas a Uldurico, ela relata estar “no pior momento da vida” e “grávida e sozinha”. Vale destacar que Joneuma alega que o ex-deputado federal é pai da criança e atualmente há um processo para um possível reconhecimento da paternidade.

No dia 18 de dezembro de 2024, um dia após o afastamento, a ex-diretora procurou Uldurico para informar que o MP-BA já teria encaminhado dois pedidos de prisão contra ela e que o jornalista e radialista Edvaldo Alves, conhecido na região de Teixeira de Freitas, planejava “expor o caso”. Na troca de texto, Uldurico pedia calma a Joneuma e chega a sugerir que ela fizesse uma viagem a Salvador para “esvair” a mente. Eles se encontraram no dia 23 de dezembro, no Hotel Mercure, localizado no Rio Vermelho. Segundo Joneuma, o ex-deputado federal a ameaçou, caso ela revelasse qualquer detalhe sobre a participação dele ou a negociação financeira com Dada. Na ocasião, eles também teriam aproveitado o encontro para combinar que seguiriam a mesma linha de defesa perante o Ministério Público, fazendo versões idênticas para possíveis depoimentos.

TENTATIVA DE FUGA

Em janeiro de 2025, diante do iminente mandado de prisão preventiva, Joneuma articulou um encontro para evadir-se da justiça. As conversas foram com um contato salvo como "Geneçi Glizard". O plano envolvia uma pessoa ("o menino") que a pegaria em um endereço específico para levá-la a um destino não identificado através de estradas de terra para evitar fiscalização. Há registros de fotos de uma parada para refeição durante esse deslocamento em 08 de janeiro de 2025. Não há detalhes do que ocorreu com o plano de fuga. Fonte da Informação: Bahia Notícia.