Por Bahia Notícias
Foto: Claudia Cardozo / Bahia Notícias
A Bahia registrou 103 feminicídios no ano de 2025. Apesar da
queda de 6% em relação ao ano anterior, o estado ocupa o terceiro lugar no
ranking nacional desse tipo de morte, de acordo com dados do Ministério da
Justiça e Segurança Pública. No Brasil, foram 1.470 casos. Especialistas ainda
apontam que os dados podem refletir subnotificação dos casos. Segundo Darlene
Andrade, professora no departamento de estudos de Gênero e Feminismo da Universidade
Federal da Bahia (UFBA) e psicóloga, falta cautela na classificação.
“Alguns registros acabam não trazendo essa conotação. A
forma como os casos são notificados acaba sendo reflexo de uma cultura que
ainda não reconhece completamente esse tipo de violência contra as mulheres”,
ponderou. Definido pelo código penal como assassinato de mulher por razões da
condição de sexo feminino, o feminicídio é um qualificador do crime de
homicídio, com penas que podem chegar a até 40 anos de prisão.
Apesar do alto número de casos, Darlene reconhece o avanço
da Lei do Feminicídio e o aumento dos debates sobre o tema. Para ela, a
discussão é essencial para a idealização de políticas públicas e a mudança na
realidade. “Reforçar que é um tipo de assassinato específico é muito importante
para a gente poder visibilizar que as mulheres têm sido mortas por serem
mulheres. Muitos feminicídios acontecem depois que a mulher termina um
relacionamento. Elas são mortas por ex-companheiros, de uma forma brutal”,
destacou a professora.
Ao longo de 2025, a Bahia registrou diversos casos de
feminicídio em que o autor do crime foi o parceiro da vítima. O assassinato
cruel de Laina Santana foi um deles. A contadora de 37 anos foi morta a
marretadas dentro de seu apartamento pelo marido, Ramon Guedes, de 38 anos. O
crime ocorreu na frente das duas filhas do casal, em Lauro de Freitas. Em
Salvador, Fabiana Correia Cardoso, de 43 anos, foi assassinada por seu
ex-companheiro João Pedro Souza Silva, após mais de um mês desaparecida. Até o
momento, seu corpo não foi encontrado. Cleber de Jesus Santos matou a
companheira a facadas em Jequié por não aceitar o fim da relação. Aluana dos
Santos já tinha, inclusive, uma medida protetiva contra o suspeito.
Dentre os casos, a crueldade é um fator que se repete. “Essa
brutalidade expressa uma mensagem cultural que está dizendo ‘seu lugar não é
aqui, você tem que fazer o que eu mando, ser subordinada a mim’. São crimes que
têm esse teor de ódio expresso”, argumenta a psicóloga. Em grande parte das ocorrências, o crime é
cometido por companheiros, maridos ou ex-companheiros. Na raiz do problema,
segundo a especialista, uma cultura patriarcal que colabora para validar a
dominação dos homens nas relações amorosas. A pesquisadora ressalta ainda que a prática desses crimes
não está relacionada a doenças ou questões de temperamento, mas sim a um ideal
reforçado na criação dos homens na sociedade. “Não existe um perfil exato de agressor, não é patológico,
mas sim, todos os homens têm esse potencial porque são criados nessa cultura,
que valida os comportamentos violentos”, completou.